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“Unicórnios” encontra beleza na conexão entre opostos cheios de conflitos

Dirigido por James Krishna Floyd e Sally El Hosaini, filme acompanha a relação inesperada entre uma drag queen e um mecânico


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“Unicórnios” começa em tons opacos, tanto na fotografia quanto na vida de Luke, mecânico de Essex e pai solteiro interpretado por Ben Hardy. O ritmo é repetitivo, marcado pelo trabalho, pela criação do filho e por encontros casuais sem entusiasmo. Esse cinza constante é quebrado quando, por acaso, Luke entra em um clube gay de Londres e vê Aysha (Jason Patel) no palco, sob luzes que transformam o ambiente em um turbilhão de cor e energia. Essa mudança visual reflete a virada na vida de Luke, mas o filme evita simplificações: não se trata de uma iluminação mágica, e sim do início de um processo de desconstrução pessoal.

O primeiro contato entre os dois carrega um choque que quase encerra a história antes de começar. Ao perceber que Aysha é uma drag queen, Luke reage com desconforto e se afasta. A tensão desse momento não é apenas sobre identidade de gênero, mas sobre como cada um lida com seus próprios limites e preconceitos. A reconexão surge quando Aysha, que não dirige, propõe que Luke a leve para apresentações em troca de dinheiro. Essa convivência força ambos a se moverem para fora de zonas de conforto bem delimitadas: ele, confrontando noções rígidas de masculinidade; ela, equilibrando a vida performática com a obrigação de manter uma fachada para a família conservadora.

A direção de James Krishna Floyd e Sally El Hosaini alterna o foco entre os protagonistas, o que evita que a trama se reduza ao arco de transformação de Luke. Aysha tem uma vida complexa que vai além do romance central: há momentos de intimidade doméstica, reuniões familiares e o peso de viver múltiplas versões de si mesma — a performer carismática, o filho obediente e o profissional que se encaixa no ambiente de trabalho. Essa multiplicidade ecoa o conceito aristotélico de phronesis: a sabedoria prática de decidir como agir em contextos que exigem ajustes constantes, sem a garantia de um caminho único ou correto.

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A química entre Hardy e Patel sustenta a narrativa. Hardy trabalha nuances físicas para mostrar um homem fechado, cuja rigidez vai se dissolvendo de forma quase imperceptível. Patel alterna magnetismo e vulnerabilidade, dando credibilidade a um personagem que poderia facilmente se tornar estereotipado. A fotografia, ao usar a cor como indicador emocional — vibrante nos shows, pálida nos lares conservadores — reforça a dicotomia entre liberdade e repressão.

O roteiro é direto, às vezes funcional demais, mas isso parece coerente com personagens que não têm o hábito de expor sentimentos de forma elaborada. Momentos como a fala de Aysha sobre as opções restritas para drag queens em famílias tradicionais são mais impactantes pela crueza do enunciado do que por qualquer construção poética. Esse realismo convive com um tom levemente romântico, suficiente para suavizar as arestas mais duras sem apagar a realidade social e cultural que os personagens enfrentam.

O filme não revoluciona o gênero romântico, mas constrói uma história com peso humano e especificidade cultural raramente vistas no cinema britânico recente. A obra se beneficia da consultoria de Asifa Lahore, pioneira drag muçulmana no Reino Unido, cuja experiência contribui para que o retrato da cena gay seja mais do que um pano de fundo exótico. Há autenticidade nas interações, rivalidades e alianças que compõem esse universo, e o filme entende que o conflito não está apenas na relação entre Luke e Aysha, mas também nas negociações internas que cada um precisa fazer para existir em diferentes espaços.

“Unicórnios” se destaca pela combinação de atuações sólidas, direção sensível e atenção aos detalhes culturais. É um romance que reconhece as complexidades do desejo e da identidade, mostrando que encontros improváveis podem provocar mudanças profundas, ainda que discretas, na forma como nos enxergamos e nos permitimos viver.


“Unicórnios”, James Krishna Floyd e Sally El Hosaini

Avaliação: 4 de 5.

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