Cultivando arte e cultura insurgentes


“As Mulheres da Sacada” transforma o verão de Marselha em comédia violenta sobre amizade feminina

Noémie Merlant dirige com energia e descontrole um filme que alterna precisão e excesso


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

“As Mulheres da Sacada” se passa durante uma onda de calor em Marselha. As varandas ficam abertas por necessidade, não por escolha, e a vida privada passa a vazar para fora. O filme começa com um prólogo curto e fechado em si mesmo, no qual uma mulher de meia-idade reage de forma extrema à violência doméstica. A cena se resolve ali. Em seguida, a narrativa muda de eixo e se instala no apartamento vizinho, onde três mulheres convivem em um espaço saturado por desejo, atrito e intimidade forçada.

Ruby é cam girl e lida com a exposição do próprio corpo de maneira afirmativa e prática. Nicole tenta escrever um livro enquanto observa o mundo com certa timidez. Élise, atriz em trânsito entre sets e crises pessoais, chega vestida como Marilyn Monroe, resíduo de um trabalho recente que ela demora a abandonar. A proximidade entre elas nunca é totalmente explicada, mas o filme aposta na fricção constante desse trio como motor dramático. O calor constante, filmado em cores saturadas e movimentos inquietos de câmera, empurra todas para decisões precipitadas.

O enredo acelera quando um fotógrafo charmoso do prédio em frente, objeto de curiosidade coletiva, cruza a linha do aceitável. O que poderia render uma comédia erótica se transforma em algo mais sujo e desordenado depois de uma tentativa de estupro e uma morte acidental. O filme então assume um caminho de humor macabro, com cenas de desmembramento e ocultação de cadáver que flertam com a farsa física e com o grotesco. Nem sempre funciona. Algumas piadas se alongam além do necessário e certas escolhas parecem feitas mais pelo impacto imediato do que por coerência interna.

Merlant, que escreve e dirige ao lado de Céline Sciamma, demonstra interesse menos em precisão narrativa do que em impulso. A sensação é a de um filme movido por estados de espírito, não por uma lógica fechada. Isso fica ainda mais claro quando elementos sobrenaturais entram em cena, ligados à capacidade inesperada de Nicole de enxergar homens mortos que cometeram abusos. Essa linha é a menos desenvolvida e, em vez de aprofundar o que já estava em jogo, adiciona ruído a uma estrutura que já é carregada.

Ainda assim, há momentos de notável acerto quando o filme desacelera. Uma cena em um consultório ginecológico, filmada de maneira frontal e sem ornamentos, trata o corpo feminino com uma franqueza rara no cinema recente. Outra sequência entre Élise e o marido expõe como a violência sexual pode surgir em situações aparentemente banais, sem recorrer a discursos explicativos.

Um conceito filosófico atravessa o filme de forma implícita: a ideia foucaultiana do olhar como dispositivo de poder. Todas as protagonistas trabalham ou vivem sob regimes distintos de visibilidade, seja diante de câmeras, leitores imaginários ou plateias invisíveis. O conflito surge quando esse olhar deixa de ser negociado e passa a impor uma hierarquia. O filme não teoriza isso, mas o encena de maneira insistente, às vezes com mais barulho do que precisão.

Como obra, “As Mulheres da Sacada” é irregular, por vezes autoconsciente demais, mas dificilmente apática. A energia que sustenta suas melhores cenas também explica seus tropeços. Merlant filma com urgência, apostando que o excesso pode dizer algo verdadeiro mesmo quando falha. O resultado é um filme que não alcança total coesão, mas oferece imagens fortes, personagens vivas e um senso de risco raro.

Nota:

Avaliação: 4 de 5.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading