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“Entre Duas Mulheres” observa o desejo doméstico com humor preciso e desconforto calculado

O novo filme de Chloé Robichaud acompanha duas vizinhas que, presas à rotina conjugal, decidem mexer no que parecia estabilizado


Avatar de Hernandes Matias Junior

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“Entre Duas Mulheres” parte de uma situação bastante clara e quase banal para construir sua engrenagem: duas mulheres na casa dos trinta, moradoras de um conjunto habitacional ecológico em Montreal, atravessam uma fase de esgotamento afetivo e sexual depois de anos de vida conjugal. Florence é tradutora, vive com o companheiro David e um filho de dez anos, convive há tempos com antidepressivos e com a lembrança vaga de uma versão de si mesma mais expansiva. Violette é mãe recente, passa os dias sozinha com o bebê enquanto o marido viaja a trabalho e parece ouvir, no silêncio do apartamento, sinais de uma vida que não lhe pertence mais. O encontro entre elas nasce de uma suspeita quase cômica e se transforma em cumplicidade, depois em ação deliberada, quando decidem explorar o desejo fora dos limites domésticos, sempre com homens que surgem para prestar serviços banais.

Chloé Robichaud acompanha essa situação sem pressa e sem buscar efeito imediato. As cenas se organizam em torno de pequenas rotinas – reuniões do condomínio, bombas de tirar leite esquecidas sobre a mesa, estufas comunitárias tratadas com um zelo quase excessivo, conversas que escorrem para remédios e hábitos digitais – e é desse acúmulo que surge o humor. Nada é sublinhado. O riso aparece quando algo banal dura um pouco mais do que deveria, quando um gesto revela um cansaço que ninguém formula em voz alta. O filme prefere observar essas mulheres em desequilíbrio discreto, deixando que suas decisões falem por si.

O roteiro de Catherine Léger, adaptado de sua própria peça e de um filme cult dos anos 1970, preserva a estrutura de farsa, mas a desacelera o suficiente para acomodar temas contemporâneos como saúde mental, maternidade e a persistente assimetria afetiva nos relacionamentos. Em alguns momentos, essa acumulação de assuntos pesa, dilui a força de certos conflitos e deixa trajetórias pessoais pouco desenvolvidas. Ainda assim, o filme ganha consistência pelo modo como articula desejo e tédio como partes do mesmo circuito. O sexo surge menos como libertação total e mais como resposta imediata a uma vida excessivamente organizada, medicada, monitorada.

É nesse ponto que “Entre Duas Mulheres” toca, de forma discreta, um conceito caro à filosofia e à psicanálise: o desejo como algo que não se resolve na satisfação pontual, mas se desloca, reaparece, muda de objeto. A experiência das protagonistas não aponta para uma descoberta definitiva, tampouco para uma queda moral. O que se vê é o desejo funcionando como força que desestabiliza rotinas, produz energia e, ao mesmo tempo, revela limites. O filme acerta ao não transformar essa dinâmica em tese. Ela está ali, incorporada nos corpos, nos silêncios, nas decisões apressadas.

Visualmente, o longa se beneficia muito da fotografia em 35mm de Sara Mishara, que dá densidade às cenas internas e abre a narrativa para recortes noturnos da cidade, trens em movimento, ruas cobertas de neve e apartamentos iluminados por uma luz suave. Esses intervalos urbanos aliviam a sensação de confinamento sem recorrer a metáforas insistentes. O desenho de produção, repleto de plantas, cores e objetos domésticos, reforça a ideia de uma vida confortável que, paradoxalmente, parece apertada demais para quem a habita.

As atuações são o eixo mais sólido do filme. Karine Gonthier-Hyndman constrói uma Florence atenta, irônica, com uma curiosidade quase estratégica diante do próprio prazer. Laurence Leboeuf oferece a Violette uma fragilidade nervosa que nunca escorrega para a histeria, permitindo que sua transformação seja percebida mais no corpo do que nas falas. Mesmo quando o roteiro simplifica ou apressa resoluções, as duas mantêm o interesse da cena, sustentando o tom ambíguo entre leveza e desconforto.

Há limites evidentes. Alguns personagens secundários entram e saem da narrativa sem função clara, certas questões são levantadas apenas para desaparecer, e o desfecho organiza conflitos com uma limpeza que não corresponde totalmente ao percurso anterior. Falta ao filme uma camada mais consistente de consequência emocional, algo que acompanhe as protagonistas para além do gesto imediato. Ainda assim, Robichaud demonstra controle de linguagem, senso de ritmo e uma curiosidade genuína por seus personagens, qualidades que impedem que a obra se reduza a um exercício de estilo.

“Entre Duas Mulheres” se firma como uma comédia adulta, irregular em pontos específicos, mas segura na observação do cotidiano e na maneira como trata o desejo feminino sem alarde nem pedagogia. Não reinventa o gênero, nem pretende fazê-lo, mas encontra valor na atenção aos detalhes, nos corpos em cena e na fricção entre conforto material e inquietação íntima.


Nota:

Avaliação: 4 de 5.


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