Cultivando arte e cultura insurgentes




Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Aparentemente, em Belo Horizonte, dá para ter uma vida romântica inteira sem nunca encontrar ninguém. O que é curioso, porque todo mundo conversa. Conversa muito. Conversa bem. Inteligente, engraçado, irônico, o pessoal é bem divertido. Às vezes até sexy. Você se anima, responde melhor do que devia, capricha. Gasta boa parte do seu repertório em Philip Roth, Michel Houellebecq e em memes da Patixa Teló. E pronto: mais uma conversa ótima que não vai dar em absolutamente nada.

O flerte virou uma modalidade de passatempo. Um hobby urbano. Uma coisa que se faz deitado, com o celular na mão, sem risco, sem esforço, sem sair de casa. Quase um esporte intelectual. E eu até entendo o apelo: é confortável, é limpo, não tem silêncio constrangedor nem cheiro errado. Só não é um encontro. O que é péssimo.

Em BH, marcar um date parece uma atitude extrema. Meio dramática. Um pouco deselegante, até. Como se você estivesse levando aquilo a sério demais. A conversa está funcionando, afinal. Por que estragar tudo com corpo? Corpo dá trabalho. Corpo exige horário. Corpo decepciona. Palavra não. Palavra sempre se explica.

Tudo pode ser adiado, racionalizado, transformado em mensagem simpática. Presença física? Para quê. A cidade domina a arte de adiar com educação. Vai ver é por isso que até hoje os belo-horizontinos não possuem metrô, só um trenzinho na superfície que vai de um bairro residencial a outro.

O problema (eu definitivamente acho que isso é um problema) é que eu nunca tive paciência para relações em estado de espera eterna. Não sou do tipo que acha excitante conversar por semanas sobre a possibilidade remota de um café. Gosto de café. Gosto de gente. Gosto quando uma coisa leva à outra. Essa coisa de “vamos ver” sempre me soou como “não”.

E não é rejeição que me incomoda. Rejeição é clara, objetiva, até elegante nos dias de hoje. O que cansa é essa suspensão interminável, esse quase que nunca vira nada. A vida afetiva em modo avião: tudo funcionando, mas sem sair do chão.

Tem gente que chama isso de leveza, um “vamos deixar acontecer” que nunca avança. Eu chamo de medo bem articulado. Um medo simpático, educado, cheio de argumentos. Um medo que manda bom dia, pergunta do seu dia, mas nunca pergunta onde você prefere sentar.

Em cidades mais impacientes, isso não se sustenta. Ou acontece ou acaba. O que, convenhamos, é um alívio. Não é mais bonito, mas é mais honesto. O desejo aparece, tropeça, some ou fica. Sem seminário.

Belo Horizonte prefere o quase. O quase-date. O quase-interesse. O quase-relacionamento. Tudo muito agradável. Tudo muito morno. Perfeito para quem gosta de conversar sobre a vida. Um pouco insuportável para quem ainda quer vivê-la.

Hoje, quando alguém sugere “ir conversando” por tempo indeterminado, não fico triste. Fico entediado. Que é uma reação mais definitiva. O tédio não pede segunda chance.

A cidade continua linda, charmosa, espirituosa. Eu continuo interessante, exigente, impaciente e plenamente consciente de que isso não é uma virtude. É só o meu jeito. E jeito, infelizmente, não se negocia por mensagem.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading