Vera Iaconelli, psicanalista e incisiva colunista da Folha, lança um olhar revelador sobre a confusão que se instala quando os garotos se perdem nas teias do machismo.
Os jovens são forçados a acreditar que devem optar entre serem red pill (homens que nutrem aversão pelas mulheres e as veem como objetos sexuais) e incel (grupos de homens celibatários involuntários que nutrem ressentimento pelas mulheres) ou renunciar à sua própria masculinidade, revela a aguda psicanalista.
Durante um vibrante debate na Casa Folha, na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, Vera, acompanhada pela perspicaz Tati Bernardi, autora de “Homem-Objeto e Outras Coisas Sobre Ser Mulher,” desvenda o intricado código que as mulheres imprimem em seus filhos sobre o que significa ser menino e ser menina, muitas vezes impulsionadas pelo temor de que seus filhos sigam caminhos não convencionais.
A desconstrução da mitificação da “mãe exausta” ganha destaque no debate, desafiando a noção de que a maternidade exige sacrifícios extremos para ser digna.
Tati Bernardi, ao recordar sua própria experiência, destaca que a mãe, muitas vezes, se sacrifica pelo bem-estar dos filhos, mas isso não significa abrir mão de sua própria realização. A honestidade prevalece quando Tati, questionada pela filha sobre sua ida à Flip, opta por responder que vai porque quer muito. A culpa, contudo, persiste, manifestando-se nos sonhos angustiantes de situações iminentes.
Ambas exploram as discrepâncias nas experiências de maternidade entre mulheres brancas e negras, desenhando um “esquema piramidal” no âmbito do cuidado, onde a responsabilidade é passada adiante, muitas vezes deixando crianças desprotegidas.
Em meio à discussão, Vera destaca que são raros os homens que conseguem abraçar com orgulho uma masculinidade autêntica, compreendendo que esta difere substancialmente de uma relação opressiva e machista. “Isso será uma verdadeira enxaqueca para vocês; nós, por outro lado, já enfrentamos a nossa dose ao tentar discernir o que significa ser mãe e ser mulher.”
Vera expõe as tristes realidades dos sequestros de filhos de mulheres negras e pobres pelo estado, sob acusações de negligência. Muitas dessas crianças acabam na fila de adoção, sob a desculpa de que serão mais felizes longe de suas mães.
Explorando as disparidades na experiência de maternidade relacionadas a classe, gênero e raça em seu livro, Vera destaca que vivemos numa sociedade incapaz de cuidar das próximas gerações, deixando sempre alguém desamparado, à mercê do abandono.
Tati, ao confessar-se “ridícula” ao reclamar sobre os desafios da maternidade, demonstra consciência de que as mães negras enfrentam adversidades muito mais graves. Sua irritação com amigas que, mesmo com uma rede de apoio, se autodenominam “mães exaustas,” ressalta as diferentes realidades.
“A mulher branca fatigada tornou-se o acessório da moda. Sim, estamos cansadas. No entanto, não estamos mais exaustas do que a mulher negra na periferia.”
Vera destaca que as mulheres brancas também enfrentam sofrimentos e angústias com a maternidade. A ideia de que bens materiais podem resolver tudo, segundo ela, é puramente capitalista. “Não adianta comprar um iPhone ou tomar um remedinho achando que isso resolverá sua angústia. Isso é pura falácia.”









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