Joanna Arnow, em seu segundo longa-metragem, Aquela Sensação de que o Tempo de Fazer Algo Passou, cria uma narrativa multifacetada que desafia a nossa compreensão sobre intimidade, solidão e o sofrimento autoinfligido. O título, ambíguo e melancólico, já nos adverte para a natureza do filme: uma personagem que está presa no vazio existencial, entre o que foi e o que nunca se concretizou, procurando no exterior algo que pareça preencher o vazio interno. Arnow, que escreve, dirige e protagoniza a obra, constrói uma visão de mundo que é ao mesmo tempo desconcertante e fascinante, mantendo o público à margem, como se fôssemos observadores de uma vida que nunca parece realmente se mover.
A história acompanha Ann, uma mulher na casa dos 30 anos que se envolve em relacionamentos sexuais submisso-eróticos com diversos homens, sendo Allen, seu parceiro BDSM de longa data, o principal foco da trama. O filme nos apresenta Ann de maneira quase completamente desprovida de glamour, tornando-a um reflexo angustiante da desconexão entre corpo e emoção. Desde o início, em uma cena desconcertante onde ela se esfrega nua contra Allen, ainda vestido, expressando prazer na indiferença dele, é evidente que as relações dela não têm um espaço para o desejo recíproco. Ann, ao que parece, não busca prazer, mas humilhação, uma forma de desaparecer diante do outro e, ao mesmo tempo, experimentar uma vertigem existencial. Nesse momento, é difícil separar o que é perversão e o que é um mecanismo de defesa, o que é uma procura pela dor e o que é um reflexo da falta de sentido em sua vida.
Arnow, com seu olhar impiedoso, não hesita em mostrar a física e emocionalmente desgastada Ann, expondo-se sem restrições. O filme é implacável ao ilustrar essa desconfortável jornada de aniquilação e busca pela inexistência, e a nudez frontal, por vezes explícita e sem qualquer tentativa de erotismo, serve apenas para reforçar a desconexão da protagonista consigo mesma e com os outros. Como na obra de Chantal Akerman, que também lida com a representação do corpo feminino em toda sua crueza, Arnow transforma seu corpo em um campo de batalha, onde cada cena, ainda que revestida de um tom de comédia, reflete o desconforto e a alienação que permeiam sua personagem.
O diálogo no filme não é naturalista, mas estilizado, quase ensaiado. Isso cria uma distância emocional entre a protagonista e o público, fazendo com que observemos não tanto as ações, mas a forma como elas são apresentadas. A repetição dessas interações com os homens e os diversos atos de humilhação ao longo do filme são meticulosamente editados para refletir a estagnação da vida de Ann. Cenas longas e repetitivas de interações sexuais e encontros vazios são cortadas com breves momentos de reflexão, como a visão de Ann assistindo à subida de uma maré com seus pais, ou um momento quase patético onde ela tenta cantar uma canção de Les Misérables de cor, sozinha em seu apartamento. Essas cenas são talvez os poucos momentos de vulnerabilidade genuína, onde o isolamento de Ann é quebrado, ainda que temporariamente, por algo que se assemelha a uma conexão emocional. Mesmo o humor do filme, muitas vezes desconcertante, é uma ferramenta de distanciamento, uma maneira de rir da desgraça de Ann sem realmente conseguir se aproximar dela.
Porém, o filme de Arnow não se limita a uma leitura unidimensional de sofrimento. Ao contrário, ele propõe que, por trás da angústia da protagonista, existe uma possibilidade de renovação. O momento mais pungente do filme ocorre quando, após diversas vinhetas de desconexão e humilhação, Ann se depara com a suavidade de Chris, um homem diferente dos outros. Sua gentileza, longe de trazer a resolução que Ann deseja, provoca uma reação desconfortável nela. A possibilidade de felicidade, de conexão genuína, parece ser quase uma ameaça para ela, algo que a faz recuar, pois sua identidade foi formada na dor e no vazio. Essa transição sutil do sofrimento para a esperança – embora tênue e não resolvida – é talvez a mais poderosa mensagem do filme.
O trabalho de Arnow, como diretora e roteirista, vai além da provocação ou do choque. Ao manipular as convenções do gênero de comédia sexual e drama existencial, ela nos leva a um território ambíguo, onde o prazer e a dor se misturam e o desespero existencial se torna, paradoxalmente, um caminho em direção à possibilidade de redenção. A grande conquista de Aquela Sensação de que o Tempo de Fazer Algo Passou é sua capacidade de nos fazer refletir sobre o tempo, a dor e o desejo, e, principalmente, sobre a maneira como nossas escolhas – ou a falta delas – moldam as nossas vidas, deixando-nos suspensos, indefinidos, como Ann. O filme não oferece respostas, mas nos força a questionar as nossas próprias narrativas de necessidade e satisfação, nos fazendo perguntar: será que sabemos, de fato, o que queremos?
“Aquela Sensação de que o Tempo de Fazer Algo Passou”, Joanna Arnow
Disponível no MUBI




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