O que torna “Ninjababy” tão magnético não é sua estrutura narrativa ou mesmo a inventividade técnica que entrelaça animação e ação ao vivo. É sua habilidade em explorar, com uma leveza quase brutal, o que acontece quando a vida vira à revelia dos nossos planos. Yngvild Sve Flikke constrói uma narrativa de arestas afiadas, em que Rakel (Kristine Kujath Thorp), uma anti-heroína que seria facilmente esquecida em outros contextos, emerge como um retrato honesto e cativante de quem falha repetidamente, mas falha de forma gloriosa.
Rakel é o tipo de pessoa que, no papel, seria julgada como uma personagem imatura ou egoísta. Uma jovem que largou o curso de design gráfico, gasta suas horas entre festas e sonhos dispersos de ser astronauta ou artista de quadrinhos, e que vê a vida adulta como um território estrangeiro e hostil. Mas Flikke se recusa a enquadrá-la em qualquer molde didático: Rakel não quer ser transformada, não está interessada em jornadas de autoaperfeiçoamento. Ela é, antes de tudo, desastradamente humana — e é precisamente aí que reside a força do filme.
Quando descobre que está grávida de quase sete meses, Rakel não reage com epifanias ou lágrimas cinematográficas; ela responde com raiva e humor sarcástico. Essa gravidez indesejada se materializa, na mente de Rakel, como o “Ninjababy”: um rascunho animado de um feto mascarado que invade sua vida com a mesma furtividade e inconveniência que sua presença biológica representa. A interação entre Rakel e essa personificação rabiscada é ao mesmo tempo cômica e desconcertante, desnudando uma tensão muito real entre a liberdade desejada e as responsabilidades que ela não pediu.
Os homens ao redor de Rakel são retratados com nuances que desafiam estereótipos fáceis: Mos, o instrutor de aikido e possível pai, é ao mesmo tempo atencioso e inepto, enquanto o apelidado “Dick Jesus” aparece como uma caricatura que Rakel não hesita em zombar. Mas o foco nunca se desvia por muito tempo de sua protagonista. A força do filme está em como ele rejeita uma resolução convencional para a maternidade como o “destino inevitável” da mulher. Rakel não romantiza sua situação, tampouco a narrativa a força a enxergar o bebê como um milagre disfarçado.
Flikke faz algo raro ao entrelaçar o humor ácido com uma sensibilidade que nunca recai no sentimentalismo. A animação, usada de forma tão integral, poderia facilmente parecer um truque superficial, mas em “Ninjababy” ela expande a narrativa, funcionando como uma janela para os pensamentos indomáveis de Rakel e como um lembrete de que a realidade pode ser simultaneamente absurda e esmagadora.
A verdadeira conquista de “Ninjababy” está em sua recusa em nos oferecer uma protagonista redimida no sentido tradicional. Rakel cresce, mas de maneira fragmentada e pouco gloriosa, como é o caso na vida real. Não é o bebê, nem os amigos, nem os potenciais pais adotivos que a transformam. Sua evolução é dolorosamente autônoma: um ato de sobrevivência emocional que se dá em meio à bagunça. A maternidade, no universo de Flikke, não é um fardo imposto nem um troféu moral. É apenas mais um elemento no caos já instalado.
Esse filme é um estudo sobre como a juventude moderna navega entre as expectativas sociais e seus próprios desejos fragmentados. Com performances brilhantes, diálogos cheios de inteligência crua e uma estética que brinca com a interface entre o real e o imaginado, “Ninjababy” é mais do que uma comédia sobre gravidez inesperada: é um retrato vívido de uma geração tentando encontrar sentido em meio ao desconforto.
“Ninjababy”, Yngvild Sve Flikke
Disponível no MUBI




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