“Cão Danado” é uma estreia de suavidade profunda e inesperada. O filme de Jean-Baptiste Durand não se limita a contar a história de dois amigos enfrentando as adversidades da vida, mas examina como a amizade – um dos vínculos mais firmes que podemos cultivar – se dissolve quando colocada à prova pela necessidade de mudança. Em sua essência, o filme é um reflexo do descompasso da juventude e da inevitável distensão entre aqueles que, um dia, nos parecem inquebrantáveis. A obra, ambientada em uma pequena cidade do sul da França, segue dois jovens cujas existências são imersas na rotina de uma vida provinciana estagnada. Eles são Mirales e Dog, dois jovens, igualmente solitários, que buscam algo além de sua cidade, mas ainda não sabem o que é esse “algo”.
Mirales, interpretado por Raphaël Quenard, é o mais vocal e impulsivo dos dois. Seu caráter é marcado pela arrogância disfarçada de intelectualismo, uma fachada que esconde, com certo cinismo, sua própria insegurança. Dog, por outro lado, é introspectivo e tímido, preferindo as sombras do seu próprio isolamento. A relação entre eles é um curioso jogo de dependência emocional e tédio, onde, apesar da dinâmica desigual, ambos parecem confortáveis em suas rotinas. A chegada de Elsa (Galatéa Bellugi), no entanto, serve como o catalisador de uma transformação que estava prestes a acontecer, mas que até então parecia invisível. Elsa, ao capturar a atenção de Dog, arranca a segurança que os dois meninos construíram. E é nesse momento que a amizade deles começa a se desintegrar, tornando-se irreconhecível, como se o que fosse sólido, ou ao menos familiar, não fosse suficiente para suportar as mudanças naturais da vida adulta.
O que Durand faz de maneira magistral é capturar essa transição não apenas no enredo, mas na construção de cada cena, de cada olhar trocado entre os protagonistas. O filme não se afasta de sua simplicidade aparente, mas em sua leveza carrega uma complexidade visceral sobre o que significa ser jovem e o quanto as nossas relações são moldadas por nossas próprias dúvidas e medos. A comédia e o drama se entrelaçam de maneira fluida, com Durand usando de um humor refinado para explorar a crueza emocional de seus personagens. O público não apenas observa, mas também sente o desconforto da solidão de ambos os meninos, um desconforto que é refletido nas suas interações, ora ásperas, ora surpreendentemente ternas.
A amizade entre Mirales e Dog é uma construção imperfeita, mas é justamente essa imperfeição que a torna uma das mais honestas representações de uma amizade genuína no cinema recente. A relação deles, apesar das provocações e dos conflitos, é cheia de momentos de vulnerabilidade e de uma confiança cega que ambos ainda não sabem que precisam desafiar. Quando o filme nos apresenta o momento de ruptura, em que Mirales, consumido pelo ciúme e pela necessidade de controlar, tenta intervir no romance entre Dog e Elsa, vemos uma versão distorcida da amizade que eles construíram. Uma versão que, embora real, é também dolorosa, pois coloca em questão a autenticidade do afeto entre eles.
No entanto, o que surge no lugar da amizade infantil é uma transformação silenciosa e, por vezes, dolorosa. Como personagens, tanto Mirales quanto Dog são empurrados para longe da segurança do que já conheciam. Mas, como todos nós, eles enfrentam as dificuldades de se tornarem adultos, com suas próprias percepções desafiadas, com os velhos hábitos e velhas crenças sobre quem são e o que podem ser. Durand, sem forçar a barra do drama, nos permite explorar esse caminho de amadurecimento com eles, em uma narrativa que nos permite sentir o desconforto de crescer, a perda de algo que jamais será recuperado e a construção de novas formas de entender os outros e a si mesmo.
O título do filme, “Cão Danado”, ressoa como uma metáfora para esse processo de crescimento e separação. A expressão “cão de ferro-velho”, mencionada pelo diretor, encapsula a ideia de que, embora a amizade possa parecer algo inabalável, ela também é algo que se molda e se transforma – assim como as relações entre esses dois jovens. Durand consegue transmitir, com simplicidade e poesia, o dilema de duas pessoas tentando entender não só suas próprias falhas, mas também a frágil dinâmica que os uniu e agora ameaça os separar.
Em seu conjunto, “Cão Danado” é um retrato profundo de uma amizade à beira da dissolução, não apenas porque as circunstâncias exigem mudanças, mas porque, no fundo, a amizade – como qualquer outro vínculo humano – não pode sobreviver sem a constante adaptação de seus membros. No fim, o filme nos diz que a verdadeira amizade é aquela que, apesar de toda a fricção e dos desafios, consegue resistir ao tempo, aos amores e até às separações.
“Cão Danado”, Jean-Baptiste Durand
Disponível no Stremio




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