Há um mito persistente que confunde envelhecer com decair. Como se o tempo, em sua passagem, carregasse consigo apenas perdas — nunca transformações. O clichê “saber envelhecer” costuma ecoar como um conselho vazio, mas esconde uma verdade incômoda: envelhecer não é sobre aceitar a morte, e sim sobre negociar com os fantasmas de quem já não somos.
O filme A Substância, de Coralie Fargeat, parece à primeira vista uma crítica estridente ao patriarcado e sua obsessão por corpos jovens. Demi Moore interpreta Elisabeth Sparkle, uma ex-estrela de Hollywood descartada por uma indústria que venera a juventude. Desesperada, ela recorre a um tratamento que gera uma versão jovem de si mesma — um duplo que, longe de ser uma salvação, se torna um pesadelo. A premissa, porém, desaba sob o peso de suas contradições. A caricatura do vilão (um Dennis Quaid delirante) e a redução da protagonista a uma vítima sem agência transformam a denúncia social em um teatro grotesco. O verdadeiro horror do filme não está na crueldade masculina, mas na armadilha que a protagonista constrói para si mesma.
Aqui, a obra escapa de seu propósito declarado. Elisabeth não é tragada pelo sistema, mas por sua incapacidade de transcender o próprio narcisismo. A substância que injeta não a liberta — a condena a repetir, em loop, os mesmos erros de sua juventude. Sua criação, a versão rejuvenescida, não é uma aliada, mas um espelho deformado de suas ambições não resolvidas. A tragédia não nasce do patriarcado, mas da ilusão de que a juventude é um estado a ser recuperado, não uma etapa a ser integrada.
Há algo de perturbadoramente universal nessa dinâmica. A cultura atual, obcecada com a autenticidade e a autoaceitação, paradoxalmente nos ensina a lutar contra o envelhecimento como se fosse uma doença. Mas o que acontece quando confundimos reinvenção com negação? Quando, em vez de evoluir, insistimos em reproduzir versões antigas de nós mesmos, cada vez mais desgastadas? Elisabeth Sparkle é a encarnação desse equívoco. Ela não quer amadurecer; quer substituir-se.
A ironia é que o filme, ao retratar mulheres como vítimas passivas, acaba por reforçar o mesmo reducionismo que pretende criticar. Camille Paglia, em seus ensaios incendiários, já alertava: tratar as mulheres como seres frágeis, incapazes de lidar com a complexidade do mundo, é uma forma sutil de paternalismo. A verdadeira emancipação exige reconhecer não apenas a força, mas também a capacidade de autodestruição inerente a todos os seres humanos — independente de gênero.
O cerne da questão não está na luta contra o patriarcado, mas na relação que mantemos com nossos “eus” passados. A juventude, quando idealizada, torna-se uma sombra que nos persegue, exigindo sacrifícios impossíveis. Envelhecer com inteligência — para usar uma expressão que o filme ignora — não é sobre abandonar quem fomos, mas aprender a dialogar com essas versões anteriores. É a arte de transformar experiência em sabedoria, não em nostalgia amarga.
A Substância falha como alegoria social, mas brilha involuntariamente como um estudo sobre a hybris humana. A mensagem mais contundente não está na crítica à indústria do entretenimento, mas no aviso silencioso de que nenhuma substância, nenhum tratamento, nenhum elixir pode nos salvar de nós mesmos. A única cura para o medo do tempo é, paradoxalmente, deixar-se habitar por ele — e encontrar, nas rugas e nas cicatrizes, a narrativa de quem soubemos nos tornar, não de quem insistimos em ser.
No final, Elisabeth Sparkle não é derrotada pelo sistema, mas por sua recusa em enxergar que a beleza não está na pele lisa, mas na história que ela carrega. E essa, talvez, seja a lição mais subversiva de todas: envelhecer não é um ato de resistência, mas de coragem íntima.









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