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Que Deus proteja o erotismo cômico

Às vezes falar de sexo tem como objetivo não excitar, mas servir como ponte para rir de si mesmo


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Postei um trecho do livro A Boba da Corte de Tati Bernardi no Instagram. Nele, a autora descreve um encontro com um cara que ela quase namorou — e que, após ser esnobado por ela inúmeras vezes, aproveita o último sexo entre os dois para uma vingança sutil: interrompe o clímax dela e, na saída, comenta o sofá barato comprado na Tok&Stok. O texto é hilário não pelo drama, mas pela humanidade grotesca que revela. Afinal, quem nunca quis dar uma rasteira existencial em quem nos fez de capacho?

O tal homem não é vilão. É um sobrevivente. Um sujeito que, cansado de ser tratado como figurante na própria história, resolve usar o único momento em que está em vantagem — o pós-sexo, quando todos estamos meio nus, literal e metaforicamente — para cutucar as inseguranças alheias. Criticar o sofá foi sua forma de dizer: “Olha só, princesa, você também não é tudo isso”. E cá entre nós, há poesia nisso. Uma poesia torta, é verdade, como um quadro pendendo na parede, mas ainda assim legítima.

A cena não é pornográfica. É tragicômica. Pornografia seria se o texto descrevesse músculos suados e gemidos cinematográficos. Já o erotismo cômico de Bernardi é sobre corpos que falham, egos que escapam pelo ralo e móveis que denunciam nossa pobreza afetiva. O cara não está ali para ser um garoto-propaganda de prazer; está para lembrar que, mesmo na cama, somos capazes de ser mesquinhos. E isso é lindo. Ou no mínimo engraçado.

Dizem que gays falam demais de sexo. Mas a verdade é que todo mundo fala — a diferença é que nós, pelo menos, admitimos que a vida sexual alheia é tão patética quanto a nossa. Héteros transformam casos em romances; gays transformam em stand-up. E no trecho de Bernardi, o que há é isso: uma piada sobre como o sexo, em vez de nos unir, revela que somos todos ótimos em sabotar a própria felicidade.

Schopenhauer já disse que o humor é a maior prova de inteligência. E ele tinha razão. Rir de um ex que usou o ápice do prazer para falar de móveis baratos é reconhecer que, no fundo, todos carregamos um quase-namorado vingativo dentro de nós. Alguém que, em vez de partir para o insulto óbvio, prefere atacar seu Ikea. É baixo? É. Mas é também deliciosamente humano.

No fim, postei o trecho porque me identifiquei — não com a Tati, mas com o cara. Já desejei ser assim: sagaz o suficiente para usar uma cena íntima como palco de um acerto de contas silencioso. Mas, no meu caso, provavelmente terminaria discutindo a procedência da lâmpada quebrada da minha sala. E tudo bem. A vida é isso: um amontoado de clímax interrompidos e comentários passivo-agressivos.

E se alguém acha estranho rir disso, sugiro um exercício simples: olhe para seu sofá. Agora imagine alguém saindo da sua cama e, em vez de um beijo de despedida, soltar um “Esse tecido arranha, hein?”. Pronto. Você acaba de entender por que a literatura que mistura erotismo e comédia não é sobre sexo — é sobre a arte de rir da própria incapacidade de ser adulto.


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