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Filme: “O Mundo”, Jia Zhangke

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No Parque Mundo de Pequim, pode-se visitar a Torre Eiffel e as Pirâmides do Egito na mesma tarde, um grand tour global condensado num espetáculo para as massas. É neste cenário de fantasia kitsch e ambição desmedida que Tao, uma dançarina nos espetáculos do parque, e o seu namorado Taisheng, um segurança, flutuam numa espécie de desencanto silencioso. O seu mundo é uma coleção de réplicas, e as suas vidas começam a espelhar esse mesmo universo de imitação, onde as emoções parecem tão pré-fabricadas quanto os monumentos que os rodeiam.

Jia Zhangke utiliza este microcosmo agridoce da China em transição para explorar a alienação de uma juventude desenraizada, que trocou o campo por uma metrópole que promete tudo, mas entrega uma realidade fragmentada. A comunicação entre Tao e Taisheng, assim como com os seus amigos e colegas, é mediada por telemóveis, com mensagens de texto que se transformam em curtas e melancólicas animações, fantasias digitais que preenchem momentaneamente o vazio de uma conexão real. Enquanto o parque oferece o mundo inteiro como um produto de consumo fácil, os seus trabalhadores permanecem isolados nas suas próprias fronteiras invisíveis, sonhando com passaportes e passagens para lugares que só conhecem através de cópias de gesso e fibra de vidro.

Através de uma observação subtil e profundamente humana, o filme tece uma tapeçaria de pequenas traições, amizades fugazes e aspirações frustradas. A chegada de uma colega russa e a visita do primo de Taisheng vindo da província servem para acentuar a distância entre o sonho globalizado e a dura realidade local. O Mundo não é um lamento, mas uma reflexão astuta e visualmente inventiva sobre a desorientação na era da hiperconectividade, questionando o que significa pertencer a um lugar quando o próprio conceito de “lugar” se tornou uma mercadoria. No meio de tantas réplicas, a busca por algo autêntico torna-se a viagem mais longa e impossível de todas.

“O Mundo” está disponível no MUBI.

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No Parque Mundo de Pequim, pode-se visitar a Torre Eiffel e as Pirâmides do Egito na mesma tarde, um grand tour global condensado num espetáculo para as massas. É neste cenário de fantasia kitsch e ambição desmedida que Tao, uma dançarina nos espetáculos do parque, e o seu namorado Taisheng, um segurança, flutuam numa espécie de desencanto silencioso. O seu mundo é uma coleção de réplicas, e as suas vidas começam a espelhar esse mesmo universo de imitação, onde as emoções parecem tão pré-fabricadas quanto os monumentos que os rodeiam.

Jia Zhangke utiliza este microcosmo agridoce da China em transição para explorar a alienação de uma juventude desenraizada, que trocou o campo por uma metrópole que promete tudo, mas entrega uma realidade fragmentada. A comunicação entre Tao e Taisheng, assim como com os seus amigos e colegas, é mediada por telemóveis, com mensagens de texto que se transformam em curtas e melancólicas animações, fantasias digitais que preenchem momentaneamente o vazio de uma conexão real. Enquanto o parque oferece o mundo inteiro como um produto de consumo fácil, os seus trabalhadores permanecem isolados nas suas próprias fronteiras invisíveis, sonhando com passaportes e passagens para lugares que só conhecem através de cópias de gesso e fibra de vidro.

Através de uma observação subtil e profundamente humana, o filme tece uma tapeçaria de pequenas traições, amizades fugazes e aspirações frustradas. A chegada de uma colega russa e a visita do primo de Taisheng vindo da província servem para acentuar a distância entre o sonho globalizado e a dura realidade local. O Mundo não é um lamento, mas uma reflexão astuta e visualmente inventiva sobre a desorientação na era da hiperconectividade, questionando o que significa pertencer a um lugar quando o próprio conceito de “lugar” se tornou uma mercadoria. No meio de tantas réplicas, a busca por algo autêntico torna-se a viagem mais longa e impossível de todas.

“O Mundo” está disponível no MUBI.

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