Nas ruas poeirentas de Fenyang, uma cidade chinesa no limiar do novo milênio, encontramos Xiao Wu, um mestre da arte furtiva, um batedor de carteiras que vive à margem. Sua destreza com os dedos, antes uma fonte de sustento e respeito em seu submundo, agora parece anacrônica diante da febre do consumismo e da ascensão de novos ricos. Xiao Wu é um fantasma de um tempo que se recusa a morrer, mas que já não tem lugar.
Enquanto seus antigos cúmplices “legalizam” suas fortunas e ascendem socialmente, como seu ex-parceiro Xiao Yong, que se prepara para um casamento ostentoso, Xiao Wu permanece preso em um limbo de solidão e desilusão. A camaradagem de outrora dá lugar a um abismo de incompreensão e desprezo velado, revelando a crueza de uma sociedade que esquece rapidamente seus precursores, especialmente os marginais.
A única centelha de esperança e vulnerabilidade surge em seu encontro com Mei Mei, uma cantora de karaokê e prostituta, igualmente marginalizada e em busca de um lugar no mundo. Nesse frágil e silencioso romance, há um eco da possibilidade de redenção ou, ao menos, de um refúgio da solidão que o assola. Mas até essa conexão é efêmera, desfeita pela inexorável marcha da vida e pela própria natureza de seus mundos precários.
Sua própria família o vê com vergonha, um fardo que o “progresso” não pode apagar. Xiao Wu é um nó de solidão, um homem que não consegue se adaptar, que se recusa a ser moldado por um futuro que o exclui. O filme traça sua trajetória inexorável para um desfecho que é tanto um acerto de contas pessoal quanto um epitáfio para uma era. É um mergulho visceral na alienação de um homem que se torna invisível – e então dolorosamente visível – em meio à voragem da modernização. Jia Zhangke, com sua lente implacável e compassiva, nos convida a testemunhar a fragilidade da dignidade e a tragédia silenciosa de quem é deixado para trás, em um lamento poético sobre a memória, a traição e o inexorável pulsar do tempo.
“Xiao Wu – O Batedor de Carteiras” está disponível no MUBI.









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