Nos anos 80, Randy “The Ram” Robinson era uma estrela, um nome que lotava arenas e estampava produtos. Seu corpo era um monumento ao excesso e sua persona, uma celebração da força. Vinte anos depois, Darren Aronofsky nos apresenta o que restou dessa glória. Randy agora luta em ginásios de escolas e salões comunitários por algumas centenas de dólares, remendando o corpo com analgésicos e esteroides, e complementando a renda atrás de um balcão de frios em um supermercado. A adoração do público foi substituída pela indiferença de clientes que mal o reconhecem. A sua realidade é um trailer em um parque decadente de Nova Jersey e uma solidão que o silêncio do pós-luta apenas amplifica. Um ataque cardíaco, consequência de uma carreira de punições autoimpostas, força-o a uma aposentadoria que ele não sabe como viver.
Com o ringue fora de questão, Randy tenta reconstruir as pontes que dinamitou ao longo da vida. A primeira é com sua filha, Stephanie, interpretada por Evan Rachel Wood, que carrega as cicatrizes de uma infância de abandono. A segunda é uma tentativa de aprofundar a relação com Cassidy, uma stripper vivida por Marisa Tomei, que, como ele, entende o comércio da performance física e o prazo de validade que o tempo impõe a seus corpos. Aronofsky observa com uma câmera quase documental a dissonância entre o homem que tenta comprar um presente para a filha e o ícone que ainda ouve os ecos dos aplausos. Os dois mundos não se encaixam, e a rotina de uma vida comum se revela um oponente mais complexo do que qualquer adversário que ele já enfrentou no tablado.
O filme investiga a natureza da identidade quando a performance se torna a única realidade possível. Para Randy, a distinção entre o homem e o personagem se desfez há muito tempo. Ser “The Ram” não é um trabalho; é a sua ontologia. Ele se sente mais autêntico recebendo golpes ensaiados do que em uma conversa honesta com a filha. A análise da obra de Aronofsky aqui passa pela maneira como a câmera segue Mickey Rourke, cuja própria trajetória profissional dialoga com a de Randy, conferindo uma camada de veracidade quase dolorosa à atuação. A narrativa não se interessa por redenção fácil ou por um arco de superação convencional. Em vez disso, examina a escolha de um homem que, confrontado com a anulação de si mesmo em uma vida suburbana, pode encontrar a afirmação final de sua existência apenas no único lugar onde sempre se sentiu completo: o ringue, onde a dor é real, o público é testemunha e o personagem é, finalmente, a pessoa.









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