Uma voz feminina lê cartas de um correspondente ausente, um cinegrafista chamado Sandor Krasna. Ele viaja pelo mundo, mas sua jornada é menos geográfica e mais temporal. A sua câmara vagueia por um Japão de alta tecnologia e tradições ancestrais, e por uma Guiné-Bissau marcada pelas cicatrizes de uma revolução recente. Este é o ponto de partida de ‘Sem Sol’, o influente ensaio cinematográfico de Chris Marker, uma obra que se move não como uma narrativa, mas como um fluxo de pensamento visual que conecta lugares, ideias e épocas aparentemente díspares.
Em Tóquio, Krasna observa os passageiros do metro a dormirem, jovens imersos em arcadas de videojogos e gatos homenageados em templos. Ele vê um futuro que já chegou, onde a tecnologia e o ritual coexistem de forma enigmática. Em contraste, a Guiné-Bissau representa um passado que luta para se definir, um lugar onde a memória coletiva da luta pela independência ainda pulsa nas ruas. Através das suas observações, o filme investiga como diferentes culturas lidam com a sua própria história e com a passagem do tempo. A obsessão de Krasna pelo filme ‘Vertigo’ de Alfred Hitchcock, que pontua as suas cartas, funciona como uma chave para a sua própria fixação com lugares específicos e com a impossibilidade de reviver plenamente o passado.
O que o cinegrafista procura não é a verdade objetiva dos factos, mas a textura da própria memória. Krasna compreende que a memória não é um arquivo fiel, mas uma reconstrução perpétua, uma edição constante do que fomos e do que vimos. É por isso que ele recorre a um amigo para criar imagens sintetizadas, a que chama de “A Zona”, um espaço digital onde pode manipular as suas filmagens para dar forma ao que não pode ser filmado: a sensação interna da recordação, livre das limitações da imagem documental.
‘Sem Sol’ é uma meditação sobre a imagem na era da sua proliferação. Marker, através do seu alter ego Krasna, examina o modo como registamos o mundo e como esses registos, por sua vez, nos moldam. O filme funciona como um mapa para a maneira como navegamos a nossa própria história pessoal num mundo saturado de media, questionando a fragilidade daquilo que escolhemos imortalizar e a natureza elusiva de tudo o que fica para trás.









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