Nobuhiko Ôbayashi, cineasta experimental japonês, nos entrega em ‘House’ (Hausu, no original) um banquete visual lisérgico que desafia qualquer categorização fácil. A trama segue uma jovem apelidada de Gorgeous, que decide passar as férias de verão na isolada casa de campo de sua tia. Acompanhada por seis amigas, cada uma com um apelido que reflete sua personalidade (Melody, Kung Fu, Sweet, Fantasy, Prof e Mac), Gorgeous imagina um refúgio bucólico e relaxante. O que elas encontram, porém, é uma mansão que parece ter suas próprias intenções sinistras, uma entidade faminta que as atrai para dentro de seus cômodos repletos de armadilhas mortais.
A casa em si, projetada como uma caricatura de lar assombrado, é o verdadeiro protagonista. Pinturas que ganham vida, pianos que atacam, pilhas de algodão que se transformam em fantasmas famintos, e um gato incrivelmente fotogênico com um olhar predatório: cada elemento da mise-en-scène contribui para um delírio surreal. Ôbayashi utiliza efeitos especiais toscos e descaradamente artificiais, numa estética que evoca tanto o expressionismo alemão quanto os desenhos animados de Tex Avery, criando uma atmosfera de terror bizarra e inebriante.
‘House’ transcende a simples narrativa de terror juvenil. É uma reflexão sobre a memória, o luto, e os traumas da guerra, filtrados através de um prisma de fantasia febril. A tia de Gorgeous, uma figura enigmática com um passado sombrio, parece personificar os horrores esquecidos da história japonesa. Ao subverter as convenções do gênero e abraçar o absurdo, Ôbayashi constrói um filme que é ao mesmo tempo assustador, engraçado e profundamente perturbador, um mergulho no inconsciente onde a lógica se desfaz e a imaginação reina suprema. O filme, no fundo, é uma alegoria sobre a fragilidade da realidade e a força destrutiva de memórias não resolvidas, que se manifestam de maneiras imprevisíveis e muitas vezes grotescas. Poderíamos invocar aqui o conceito do eterno retorno nietzschiano, onde o passado ressurge ciclicamente, assombrando o presente e moldando o futuro.









Deixe uma resposta