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Filme: “Lanternas Vermelhas” (1991), Zhang Yimou

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Na China da década de 1920, a jovem Songlian, interpretada por Gong Li com uma complexidade gelada, vê seu futuro como universitária desvanecer-se após a morte do pai. Diante de uma escolha pragmática e desprovida de afeto, ela aceita se tornar a quarta esposa de um mestre rico e ausente, trocando sua autonomia intelectual por uma gaiola dourada. O filme ‘Lanternas Vermelhas’, de Zhang Yimou, mergulha na chegada de Songlian a uma propriedade suntuosa e claustrofóbica, um complexo de pátios idênticos onde a vida é regida por rituais imutáveis. Todas as noites, uma lanterna vermelha é acesa na porta da esposa escolhida para passar a noite com o mestre, um ato que concede a ela privilégios temporários, como uma massagem nos pés e o poder de escolher o cardápio do dia seguinte.

O que se desenrola não é um simples drama de rivalidade, mas um estudo clínico sobre as dinâmicas de poder em um sistema fechado. Songlian, inicialmente observadora e altiva, rapidamente aprende que a sobrevivência depende da manipulação das regras e das outras mulheres. A primeira esposa é uma figura envelhecida e resignada, a segunda aparenta doçura mas esconde uma astúcia perigosa, e a terceira, uma ex-cantora de ópera, exibe uma melancolia volátil. A competição pela lanterna transforma-se em um jogo psicológico de alianças frágeis, traições sussurradas e sabotagens calculadas, onde as servas atuam como peões e informantes. Zhang Yimou filma esse ambiente com uma paleta de cores saturadas, dominada pelo vermelho opressivo das lanternas e pelo cinza das paredes que aprisionam, utilizando enquadramentos simétricos que reforçam a sensação de ordem e confinamento.

A estrutura do poder na casa é um exemplo funcional de um panóptico, onde a autoridade não precisa estar sempre visível para ser sentida. O mestre é uma presença quase fantasmagórica, seu rosto raramente é mostrado em detalhe, mas seu poder é absoluto e internalizado por todas. As mulheres não competem apenas por seu afeto, mas pela validação dentro de uma hierarquia que as define unicamente por sua função. Elas se vigiam mutuamente com mais rigor do que o próprio mestre jamais poderia, tornando-se agentes da sua própria subjugação. A inteligência de Songlian, que poderia ter sido sua libertação no mundo exterior, torna-se sua ferramenta para jogar um jogo que, por fim, corrói sua sanidade.

A cinematografia de Zhang Yimou opera com uma precisão geométrica, transformando a arquitetura da casa em uma personagem central que dita o movimento e o destino de suas habitantes. Cada porta, cada pátio e cada corredor são parte de uma coreografia de poder que se repete com uma inevitabilidade assustadora. Ao final, quando o ciclo se reinicia com a chegada de uma nova esposa, a trajetória de Songlian serve como uma demonstração potente de como tradições, despidas de seu significado e convertidas em mecanismos de controle, podem anular a individualidade. O filme não oferece julgamentos fáceis, apresentando em vez disso um sistema autoperpetuável onde as escolhas individuais são progressivamente sufocadas pela lógica implacável da estrutura.

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Na China da década de 1920, a jovem Songlian, interpretada por Gong Li com uma complexidade gelada, vê seu futuro como universitária desvanecer-se após a morte do pai. Diante de uma escolha pragmática e desprovida de afeto, ela aceita se tornar a quarta esposa de um mestre rico e ausente, trocando sua autonomia intelectual por uma gaiola dourada. O filme ‘Lanternas Vermelhas’, de Zhang Yimou, mergulha na chegada de Songlian a uma propriedade suntuosa e claustrofóbica, um complexo de pátios idênticos onde a vida é regida por rituais imutáveis. Todas as noites, uma lanterna vermelha é acesa na porta da esposa escolhida para passar a noite com o mestre, um ato que concede a ela privilégios temporários, como uma massagem nos pés e o poder de escolher o cardápio do dia seguinte.

O que se desenrola não é um simples drama de rivalidade, mas um estudo clínico sobre as dinâmicas de poder em um sistema fechado. Songlian, inicialmente observadora e altiva, rapidamente aprende que a sobrevivência depende da manipulação das regras e das outras mulheres. A primeira esposa é uma figura envelhecida e resignada, a segunda aparenta doçura mas esconde uma astúcia perigosa, e a terceira, uma ex-cantora de ópera, exibe uma melancolia volátil. A competição pela lanterna transforma-se em um jogo psicológico de alianças frágeis, traições sussurradas e sabotagens calculadas, onde as servas atuam como peões e informantes. Zhang Yimou filma esse ambiente com uma paleta de cores saturadas, dominada pelo vermelho opressivo das lanternas e pelo cinza das paredes que aprisionam, utilizando enquadramentos simétricos que reforçam a sensação de ordem e confinamento.

A estrutura do poder na casa é um exemplo funcional de um panóptico, onde a autoridade não precisa estar sempre visível para ser sentida. O mestre é uma presença quase fantasmagórica, seu rosto raramente é mostrado em detalhe, mas seu poder é absoluto e internalizado por todas. As mulheres não competem apenas por seu afeto, mas pela validação dentro de uma hierarquia que as define unicamente por sua função. Elas se vigiam mutuamente com mais rigor do que o próprio mestre jamais poderia, tornando-se agentes da sua própria subjugação. A inteligência de Songlian, que poderia ter sido sua libertação no mundo exterior, torna-se sua ferramenta para jogar um jogo que, por fim, corrói sua sanidade.

A cinematografia de Zhang Yimou opera com uma precisão geométrica, transformando a arquitetura da casa em uma personagem central que dita o movimento e o destino de suas habitantes. Cada porta, cada pátio e cada corredor são parte de uma coreografia de poder que se repete com uma inevitabilidade assustadora. Ao final, quando o ciclo se reinicia com a chegada de uma nova esposa, a trajetória de Songlian serve como uma demonstração potente de como tradições, despidas de seu significado e convertidas em mecanismos de controle, podem anular a individualidade. O filme não oferece julgamentos fáceis, apresentando em vez disso um sistema autoperpetuável onde as escolhas individuais são progressivamente sufocadas pela lógica implacável da estrutura.

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