Num subúrbio imaculado do San Fernando Valley, em 1987, Carol White vive uma existência de privilégio asséptico. A sua vida, uma sequência de aulas de aeróbica, almoços com amigas e a gestão de uma casa perfeitamente decorada, é desprovida de qualquer atrito ou paixão. Julianne Moore, numa atuação que definiria a sua carreira, encarna Carol com uma passividade perturbadora, uma mulher que parece estar a desaparecer dentro da sua própria vida. Subitamente, o seu corpo começa a trair essa ordem. Uma tosse seca no cabeleireiro, uma dificuldade de respirar atrás de um autocarro, um sangramento nasal inexplicável. Os médicos, com toda a sua autoridade, não oferecem respostas, e Carol afunda-se numa espiral de ansiedade e isolamento, convencida de que sofre de uma doença ambiental, uma alergia ao próprio século vinte.
Todd Haynes aborda este colapso com uma distância fria e precisa, transformando o que poderia ser um drama convencional num estudo de horror corporal e social. A sua câmara enquadra Carol como uma figura minúscula em cenários vastos e impessoais, a sua casa e os espaços públicos funcionando como contentores estéreis que, paradoxalmente, a sufocam. O filme examina com uma inteligência rara como o discurso sobre saúde e bem-estar pode tornar-se uma nova forma de controlo, onde a responsabilidade pela cura é transferida para o doente. A sua jornada leva-a a Wrenwood, uma comunidade de cura New Age no deserto, liderada por um guru carismático que prega a autoaceitação como antídoto. No entanto, este refúgio revela-se apenas uma outra arquitetura de confinamento, que substitui os poluentes químicos pelos psicológicos, insistindo que a doença é uma falha do eu.
A obra de Haynes é um diagnóstico incisivo da alienação moderna, da vacuidade de certas promessas de autoajuda e da dificuldade de nomear um mal-estar que é, ao mesmo tempo, físico e profundamente existencial. Lançado em meados dos anos 90, ‘Seguro’ antecipou de forma notável as ansiedades contemporâneas sobre o ambiente, a identidade e as armadilhas da indústria do bem-estar. Permanece uma peça fundamental do cinema independente americano, uma obra que opera com uma subtileza arrepiante e cuja quietude é mais ensurdecedora do que qualquer grito. A doença de Carol é o sintoma visível de um vazio que a cultura ao seu redor se recusa a reconhecer.









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