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Filme: “Soberba” (1942), Orson Welles

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No crepúsculo do século XIX, a família Amberson é o centro gravitacional de sua cidade, uma dinastia americana cuja mansão imponente e riqueza parecem tão permanentes quanto as estrelas. A sua saga, contudo, é a crônica de uma queda, catalisada pelo seu próprio herdeiro, o jovem e insuportavelmente arrogante George Amberson Minafer. Ao regressar da faculdade, George encontra a sua mãe viúva, Isabel, a reacender um antigo romance com Eugene Morgan, um inventor pragmático que aposta o futuro na sua ruidosa criação: o automóvel. Para George, a relação é uma afronta à memória do seu pai e à imaculada reputação da família. A sua oposição, alimentada por um orgulho possessivo e uma recusa em aceitar a marcha do tempo, desencadeia uma série de decisões que irão corroer a fortuna e o prestígio dos Amberson, arrastando todos consigo para a obscuridade.

O que Orson Welles constrói é um estudo melancólico sobre o fim de uma era, onde a poeira levantada pelos primeiros automóveis assenta sobre os velhos costumes da aristocracia. A arrogância de George é a manifestação de uma húbris que parece extraída diretamente da dramaturgia grega, uma certeza cega na própria superioridade que o impede de ver o mundo a transformar-se à sua volta. Welles filma esta desintegração com uma elegância formal assombrosa, utilizando a profundidade de campo para situar os seus personagens em espaços que se tornam progressivamente mais vazios e sombrios, ecoando o seu declínio interior. As atuações, especialmente a de Agnes Moorehead como a tia Fanny, cuja instabilidade emocional reflete a precariedade da família, conferem uma dimensão humana e pungente a esta transição histórica.

Contudo, a história de Soberba não termina nos créditos. O filme que chegou aos cinemas é uma versão notoriamente mutilada pela RKO, que, na ausência de Welles, cortou mais de quarenta minutos do original e filmou um final mais otimista. A obra, na sua forma atual, é tanto um documento sobre a erosão de uma classe social quanto um testemunho da colisão entre a visão artística e os imperativos comerciais de Hollywood. O que resta é ainda assim um feito cinematográfico monumental, um trabalho de atmosfera densa e beleza visual que revela o génio do seu realizador mesmo através das cicatrizes da edição. É um retrato poderoso, não sobre a chegada do futuro, mas sobre o que e quem fica para trás quando ele chega.

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No crepúsculo do século XIX, a família Amberson é o centro gravitacional de sua cidade, uma dinastia americana cuja mansão imponente e riqueza parecem tão permanentes quanto as estrelas. A sua saga, contudo, é a crônica de uma queda, catalisada pelo seu próprio herdeiro, o jovem e insuportavelmente arrogante George Amberson Minafer. Ao regressar da faculdade, George encontra a sua mãe viúva, Isabel, a reacender um antigo romance com Eugene Morgan, um inventor pragmático que aposta o futuro na sua ruidosa criação: o automóvel. Para George, a relação é uma afronta à memória do seu pai e à imaculada reputação da família. A sua oposição, alimentada por um orgulho possessivo e uma recusa em aceitar a marcha do tempo, desencadeia uma série de decisões que irão corroer a fortuna e o prestígio dos Amberson, arrastando todos consigo para a obscuridade.

O que Orson Welles constrói é um estudo melancólico sobre o fim de uma era, onde a poeira levantada pelos primeiros automóveis assenta sobre os velhos costumes da aristocracia. A arrogância de George é a manifestação de uma húbris que parece extraída diretamente da dramaturgia grega, uma certeza cega na própria superioridade que o impede de ver o mundo a transformar-se à sua volta. Welles filma esta desintegração com uma elegância formal assombrosa, utilizando a profundidade de campo para situar os seus personagens em espaços que se tornam progressivamente mais vazios e sombrios, ecoando o seu declínio interior. As atuações, especialmente a de Agnes Moorehead como a tia Fanny, cuja instabilidade emocional reflete a precariedade da família, conferem uma dimensão humana e pungente a esta transição histórica.

Contudo, a história de Soberba não termina nos créditos. O filme que chegou aos cinemas é uma versão notoriamente mutilada pela RKO, que, na ausência de Welles, cortou mais de quarenta minutos do original e filmou um final mais otimista. A obra, na sua forma atual, é tanto um documento sobre a erosão de uma classe social quanto um testemunho da colisão entre a visão artística e os imperativos comerciais de Hollywood. O que resta é ainda assim um feito cinematográfico monumental, um trabalho de atmosfera densa e beleza visual que revela o génio do seu realizador mesmo através das cicatrizes da edição. É um retrato poderoso, não sobre a chegada do futuro, mas sobre o que e quem fica para trás quando ele chega.

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