Numa Londres vitoriana reimaginada como um pesadelo gótico, onde o céu parece permanentemente cinzento e a fuligem industrial cobre a alma das pessoas, um homem retorna do exílio. Benjamin Barker, agora rebatizado como Sweeney Todd, chega à Rua Fleet com um único e corrosivo propósito: vingança. Ele foi injustamente sentenciado pelo lascivo Juiz Turpin, um homem que cobiçou sua esposa e roubou sua filha. A Londres que o recebe de volta é irreconhecível, e ele mesmo é um fantasma movido por uma obsessão fria. Sua base de operações é montada acima da decadente loja de tortas de Mrs. Lovett, uma mulher cujo pragmatismo mórbido a torna a parceira de negócios ideal para os planos do barbeiro. A engrenagem macabra é simples: Todd oferece os mais renteados e definitivos barbeares da cidade, enquanto Mrs. Lovett descobre uma fonte de carne barata e misteriosa para suas tortas, que rapidamente se tornam um sucesso. Assim se estabelece a mais sombria e eficiente linha de produção da capital.
Tim Burton transforma o aclamado musical de Stephen Sondheim numa opereta de Grand Guignol, onde o cromatismo da desesperança só é quebrado pelo vermelho vibrante e teatral do sangue. A direção de arte, herdeira direta do expressionismo alemão, constrói uma cidade que é, ela mesma, uma personagem opressora, cujas vielas e prédios tortos parecem encurralar seus habitantes. As atuações são afinadas a esse diapasão estilizado. Johnny Depp entrega um Todd esvaziado, quase autômato, cuja voz não busca a perfeição melódica dos palcos, mas a crueza de uma alma em frangalhos. Helena Bonham Carter, por sua vez, compõe uma Mrs. Lovett que é o motor cômico e aterrorizante da trama, seu otimismo diante do macabro revela a normalização da barbárie. É na jornada de Todd que a obra insinua uma de suas ideias mais perturbadoras, um eco do abismo nietzschiano: na caçada obsessiva ao monstro, o caçador se desfaz. O barbeiro se torna a própria navalha, um instrumento cego de uma fúria que já esqueceu seu propósito original.
Mais do que uma simples história de revanche, o filme funciona como uma fábula sombria sobre o canibalismo social da era industrial. Os corpos que descem pelo alçapão da barbearia para o forno de Mrs. Lovett são uma metáfora grotesca e literal de um sistema que consome os despossuídos para sustentar sua própria fachada de civilidade. Burton não suaviza a misantropia inerente à obra de Sondheim; pelo contrário, ele a abraça, utilizando a música dissonante e as letras intrincadas para sublinhar a podridão moral que se esconde sob as perucas e os modos da alta sociedade. O resultado é uma sinfonia de desolação que encontra uma beleza perversa na queda humana, servida quente e com um sorriso torto.









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