Uma família burguesa, impecavelmente composta por Anna, Georg e o filho Georgie, chega à sua idílica casa de veraneio à beira de um lago. O plano é descomplicado: velejar, relaxar, desfrutar dos privilégios silenciosos de sua classe. A rotina é quebrada pela visita de um jovem educado, vestido de branco, que pede alguns ovos emprestados a pedido da vizinha. Quando ele, desajeitadamente, os deixa cair, um segundo jovem aparece para ajudar. O que começa como um estranhamento social, uma quebra sutil de etiqueta, se transforma lentamente em uma invasão calculada. A polidez dos visitantes, Paul e Peter, é a sua arma mais afiada, desarmando a família e o espectador antes que a primeira agressão física ocorra.
O que se desenrola a partir daí é uma longa noite de tormento psicológico e físico, coreografado pelos dois intrusos como uma série de “jogos”. Eles propõem uma aposta: às nove da manhã do dia seguinte, a família ainda estará viva? Michael Haneke posiciona a sua câmara com uma distância clínica, recusando-se a glamorizar ou estetizar a violência. Pelo contrário, muito do horror acontece fora do campo de visão, deixando o som e a imaginação da audiência preencherem os espaços vazios. A genialidade perturbadora do filme se manifesta quando Paul, o líder dos jogos, se vira para a câmara, pisca e se dirige diretamente a nós. Ele sabe que estamos a assistir, e a sua cumplicidade forçada nos torna reféns da mesma narrativa da qual a família não consegue escapar.
Violência Gratuita funciona menos como um thriller e mais como um tratado sobre o consumo de imagens violentas. Haneke metodicamente remove todos os elementos que normalmente nos proporcionam conforto ou catarse em filmes do género. A maldade aqui não precisa de uma história de fundo ou de uma justificação psicológica; ela é apresentada como um facto consumado, uma manifestação da banalidade do mal, onde atos terríveis são executados com a mesma displicência de uma tarefa administrativa. O momento em que a narrativa é literalmente rebobinada com um controle remoto para anular um breve sucesso das vítimas é a declaração de tese de Haneke: no cinema de entretenimento, as regras são manipuláveis, e a procura do público por um espetáculo sádico será, em última análise, satisfeita pelo realizador, que detém o poder absoluto sobre a diegese.









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