Michelangelo Frammartino, com As Quatro Vezes, oferece uma imersão singular na Calábria mais profunda, um estudo observacional que explora caminhos narrativos incomuns. O filme se abre acompanhando os últimos dias de um velho pastor de cabras, cuja vida parece indissociável da paisagem montanhosa e das rotinas milenares que ali persistem.
A câmera de Frammartino, quase uma entidade silenciosa, registra a cotidianidade de um vilarejo esquecido no tempo, onde a crença popular e a natureza se entrelaçam de forma orgânica. A jornada do pastor, marcada pela tosse e pela fragilidade, dissolve-se gradualmente na paisagem, abrindo caminho para uma exploração sobre a continuidade da existência para além da forma humana.
É neste ponto que As Quatro Vezes revela sua estrutura intrigante: o foco se move, com uma naturalidade quase imperceptível, para uma cabra recém-nascida, depois para uma majestosa árvore de abeto, e finalmente para o processo de transformação dessa mesma árvore em carvão. O diretor, com uma paciência notável, traça a passagem da matéria e da energia através de diferentes estados, sugerindo uma espécie de transmiração vital que liga todos os elementos do mundo natural.
Sem diálogos expositivos ou trilhas sonoras orquestrais, o filme tece uma sinfonia visual e sonora dos elementos: o vento nas folhas, o balido das cabras, o crepitar do fogo, o sussurro do tempo. A cinematografia captura a beleza rude e a autenticidade de um modo de vida que segue ritmos ancestrais. É uma obra que instiga à contemplação, à percepção dos fluxos invisíveis que conectam o humano, o animal, o vegetal e o mineral. Frammartino sutilmente conduz o espectador a sintonizar-se com uma temporalidade diferente, onde a vida e o declínio não são pontos finais, mas transições contínuas em um grande ciclo cósmico, uma dança incessante de aparições e desaparecimentos.









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