O massacre na Columbine High School, em 1999, funciona como o catalisador, mas não o centro, da investigação sui generis que Michael Moore empreende em seu documentário. Com sua característica abordagem que mistura o jornalismo de guerrilha, a comédia ácida e uma persona pública cuidadosamente construída, Moore parte de uma pergunta aparentemente simples: por que a taxa de mortalidade por armas de fogo nos Estados Unidos é exponencialmente maior do que em outras nações desenvolvidas? A busca por uma resposta o lança em um road trip satírico pelo coração de uma América ansiosa, onde a violência parece ser tanto um espetáculo midiático quanto uma epidemia silenciosa que se alastra pelos impecáveis gramados dos subúrbios.
O método de Moore é a montagem provocadora. Ele justapõe uma entrevista surpreendentemente lúcida com o músico Marilyn Manson, frequentemente culpado pela tragédia, com uma sequência animada que reconta a história americana através de sua paranoia racial e política. Visita o Canadá, um país com uma quantidade similar de armas por cidadão, mas com uma fração da violência, e confronta executivos da K-Mart para que parem de vender munições. O documentário constrói seu argumento não através de uma narração expositiva, mas pelo choque de imagens e ideias: o pânico moralista da mídia, a normalização de sistemas de segurança em escolas e a retórica inflamada de figuras como Charlton Heston, então presidente da NRA. A análise de Tiros em Columbine revela como o medo se tornou um produto de consumo, vendido 24 horas por dia e alimentado por um ciclo vicioso entre noticiários e políticos.
Ao seguir Moore em sua tentativa de abrir uma conta bancária e sair de lá com um rifle, o filme se aproxima sutilmente do conceito da banalidade do mal, de Hannah Arendt. A questão levantada não é sobre a existência de indivíduos inerentemente perversos, mas sobre como uma sociedade e seus sistemas podem criar as condições para que atos terríveis se tornem assustadoramente triviais. A facilidade com que a violência é armada, a indiferença burocrática e uma cultura saturada de pavor formam o verdadeiro objeto de estudo do filme. A sua eficácia duradoura não está em fornecer uma causa única, mas em diagnosticar uma patologia nacional complexa, onde a posse de uma arma é sintoma de um mal-estar muito mais profundo e difundido.









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