Em “10”, Abbas Kiarostami confina sua narrativa ao interior de um carro, palco de intensos diálogos entre uma motorista divorciada e seus passageiros. A câmera fixa, posicionada no painel, registra sem adornos as conversas que se desenrolam, revelando as complexidades da vida moderna no Irã. A protagonista, uma mulher cujo nome não é revelado, conduz por Teerã enquanto discute com seu filho Amin sobre o divórcio, com uma prostituta sobre as dificuldades da profissão, e com sua irmã sobre as expectativas sociais impostas às mulheres.
A aparente simplicidade formal esconde uma profunda investigação sobre a condição feminina, os tabus e as tensões sociais. Kiarostami, ao optar por um estilo minimalista, distancia-se de julgamentos morais, permitindo que as próprias palavras dos personagens revelem suas perspectivas. O carro, portanto, torna-se um microcosmo da sociedade iraniana, onde o privado e o público se encontram e se confrontam. A repetição da estrutura, com a câmera sempre no mesmo ponto de vista, enfatiza a rotina e o aprisionamento, remetendo sutilmente ao conceito sartriano do “inferno são os outros”. O filme não busca soluções fáceis, mas sim expõe as contradições e os dilemas enfrentados por aqueles que buscam sua própria voz em um mundo em transformação.









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