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Filme: “Zazie no Metrô” (1960), Louis Malle

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Uma pré-adolescente com uma boca mais suja que o Sena e um único desejo existencial aterrissa em Paris: andar de metrô. Essa é Zazie, a força motriz do caos orquestrado por Louis Malle em Zazie no Metrô. Deixada aos cuidados de seu tio Gabriel, um dançarino de cabaré com uma rotina peculiar, a garota descobre que seu objetivo singelo é frustrado por uma greve que paralisa toda a cidade. O que se segue não é a jornada de uma turista desapontada, mas a detonação de uma bomba de anarquia verbal e visual sobre uma capital francesa que parece ter sido redesenhada por um cartunista sob efeito de estimulantes. A Paris de Malle não é a cidade das luzes, mas um playground surrealista para a energia indomável de sua pequena protagonista.

A narrativa se desfaz em uma série de vinhetas frenéticas, onde a lógica cede lugar a uma sucessão de gags que testam a elasticidade do próprio cinema. Perseguições em fast-forward, brigas que eclodem e se resolvem com a naturalidade de uma piscadela, e diálogos que são pura metralhadora verbal transformam a experiência em algo próximo de um sonho febril coletivo. Personagens entram e saem da trama com propósitos fluidos: um policial que pode ou não ser um impostor, uma viúva em busca de romance, um papagaio tagarela e um motorista de táxi que se tornam peças em um tabuleiro onde as regras são constantemente reescritas pela irreverência de Zazie. O metrô, o objeto de desejo inalcançável, paira sobre tudo como um significante ausente, o catalisador silencioso para a desordem generalizada.

Mergulhando fundo no espírito do romance original de Raymond Queneau, Louis Malle não se limita a filmar o caos; ele o utiliza como sua principal ferramenta estilística. A obra opera como um ataque frontal à solenidade da linguagem e das convenções sociais. É aqui que o filme flerta com o absurdismo, ao colocar a lógica infantil e brutalmente honesta de Zazie contra o mundo adulto, um universo de dissimulações, regras sem sentido e comunicação falha. A vulgaridade da menina não é gratuita; é sua forma de expor a hipocrisia ao seu redor. Ela não busca entender o mundo dos mais velhos, mas sim apontar sua completa falta de nexo. A câmera de Malle, com seus cortes abruptos, cores saturadas e quebras da quarta parede, torna-se cúmplice dessa visão de mundo.

Ao final, a passagem de Zazie por Paris deixa um rastro de destruição cômica e a sensação de que nada realmente aconteceu, exceto por uma exaustão libertadora. O filme se posiciona como um experimento vibrante dentro da própria Nouvelle Vague, trocando a melancolia existencial de alguns de seus contemporâneos por uma celebração da anarquia pura. Não se trata de uma história com um arco de transformação claro, mas da captura de uma energia, um momento de ruptura onde o cinema se diverte com suas próprias possibilidades. Quando Zazie finalmente parte, e alguém lhe pergunta o que ela fez, sua resposta, “envelheci”, soa menos como uma constatação e mais como a única conclusão possível para um fim de semana que comprimiu uma vida inteira de desordem.

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Uma pré-adolescente com uma boca mais suja que o Sena e um único desejo existencial aterrissa em Paris: andar de metrô. Essa é Zazie, a força motriz do caos orquestrado por Louis Malle em Zazie no Metrô. Deixada aos cuidados de seu tio Gabriel, um dançarino de cabaré com uma rotina peculiar, a garota descobre que seu objetivo singelo é frustrado por uma greve que paralisa toda a cidade. O que se segue não é a jornada de uma turista desapontada, mas a detonação de uma bomba de anarquia verbal e visual sobre uma capital francesa que parece ter sido redesenhada por um cartunista sob efeito de estimulantes. A Paris de Malle não é a cidade das luzes, mas um playground surrealista para a energia indomável de sua pequena protagonista.

A narrativa se desfaz em uma série de vinhetas frenéticas, onde a lógica cede lugar a uma sucessão de gags que testam a elasticidade do próprio cinema. Perseguições em fast-forward, brigas que eclodem e se resolvem com a naturalidade de uma piscadela, e diálogos que são pura metralhadora verbal transformam a experiência em algo próximo de um sonho febril coletivo. Personagens entram e saem da trama com propósitos fluidos: um policial que pode ou não ser um impostor, uma viúva em busca de romance, um papagaio tagarela e um motorista de táxi que se tornam peças em um tabuleiro onde as regras são constantemente reescritas pela irreverência de Zazie. O metrô, o objeto de desejo inalcançável, paira sobre tudo como um significante ausente, o catalisador silencioso para a desordem generalizada.

Mergulhando fundo no espírito do romance original de Raymond Queneau, Louis Malle não se limita a filmar o caos; ele o utiliza como sua principal ferramenta estilística. A obra opera como um ataque frontal à solenidade da linguagem e das convenções sociais. É aqui que o filme flerta com o absurdismo, ao colocar a lógica infantil e brutalmente honesta de Zazie contra o mundo adulto, um universo de dissimulações, regras sem sentido e comunicação falha. A vulgaridade da menina não é gratuita; é sua forma de expor a hipocrisia ao seu redor. Ela não busca entender o mundo dos mais velhos, mas sim apontar sua completa falta de nexo. A câmera de Malle, com seus cortes abruptos, cores saturadas e quebras da quarta parede, torna-se cúmplice dessa visão de mundo.

Ao final, a passagem de Zazie por Paris deixa um rastro de destruição cômica e a sensação de que nada realmente aconteceu, exceto por uma exaustão libertadora. O filme se posiciona como um experimento vibrante dentro da própria Nouvelle Vague, trocando a melancolia existencial de alguns de seus contemporâneos por uma celebração da anarquia pura. Não se trata de uma história com um arco de transformação claro, mas da captura de uma energia, um momento de ruptura onde o cinema se diverte com suas próprias possibilidades. Quando Zazie finalmente parte, e alguém lhe pergunta o que ela fez, sua resposta, “envelheci”, soa menos como uma constatação e mais como a única conclusão possível para um fim de semana que comprimiu uma vida inteira de desordem.

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