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Filme: “Chicago” (2002), Rob Marshall

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Na efervescente Chicago da era do jazz, onde o gin é barato e a ambição é cara, Roxie Hart é uma dona de casa com sonhos de vaudeville que anseia por uma vida para além da banalidade de seu casamento. Do outro lado do espectro da fama está Velma Kelly, a estrela reinante dos palcos locais, cuja carreira e notoriedade são tão afiadas quanto os crimes que a levaram para trás das grades. O destino das duas se cruza na ala feminina da penitenciária do Condado de Cook, ambas acusadas de assassinato. Para Velma, a prisão é um revés temporário, mais uma manchete para manter seu nome em voga. Para Roxie, é uma oportunidade inesperada, um palco bizarro onde ela finalmente pode conquistar os holofotes que sempre desejou, mesmo que seja como uma criminosa célebre.

A dinâmica do poder e da fama se desenrola sob a batuta de duas figuras centrais do sistema: a pragmática e corrupta matrona “Mama” Morton, que administra favores e carreiras dentro da prisão como um negócio, e o advogado Billy Flynn, um mestre da manipulação midiática cujo talento não está na lei, mas na criação de narrativas. Flynn transforma o sistema judicial em um teatro de variedades, vendendo aos jornais e ao público a história que eles querem consumir. Ele pega a novata Roxie e a molda na persona da “pecadora arrependida”, uma figura trágica e glamorosa que rapidamente captura a imaginação da cidade. A ascensão de Roxie ofusca a outrora proeminente Velma, dando início a uma rivalidade feroz não por justiça ou liberdade, mas pelo bem mais precioso de Chicago: a atenção da imprensa.

A direção de Rob Marshall estabelece uma distinção visual e narrativa fundamental que define a obra: a realidade é filmada com uma paleta crua e sombria, enquanto os números musicais explodem como fantasias estilizadas dentro da mente de Roxie. As sequências de canto e dança não são interrupções, mas manifestações da sua psique, uma forma de processar a sordidez de sua situação através da linguagem que ela entende, a do espetáculo. O filme opera como uma ilustração quase literal da Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, onde a representação da realidade suplanta a própria realidade. O julgamento de Roxie não é um processo judicial; é a maior performance de sua vida, coreografada por Flynn para um júri que atua como plateia. ‘Chicago’ examina a simbiose entre crime e entretenimento, a efemeridade da notoriedade e a verdade desconfortável de que, em uma cultura obcecada pela superfície, a autenticidade é apenas mais um papel a ser desempenhado. A absolvição ou a condenação tornam-se menos importantes do que a capacidade de manter o público aplaudindo até que a próxima grande história surja.

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Na efervescente Chicago da era do jazz, onde o gin é barato e a ambição é cara, Roxie Hart é uma dona de casa com sonhos de vaudeville que anseia por uma vida para além da banalidade de seu casamento. Do outro lado do espectro da fama está Velma Kelly, a estrela reinante dos palcos locais, cuja carreira e notoriedade são tão afiadas quanto os crimes que a levaram para trás das grades. O destino das duas se cruza na ala feminina da penitenciária do Condado de Cook, ambas acusadas de assassinato. Para Velma, a prisão é um revés temporário, mais uma manchete para manter seu nome em voga. Para Roxie, é uma oportunidade inesperada, um palco bizarro onde ela finalmente pode conquistar os holofotes que sempre desejou, mesmo que seja como uma criminosa célebre.

A dinâmica do poder e da fama se desenrola sob a batuta de duas figuras centrais do sistema: a pragmática e corrupta matrona “Mama” Morton, que administra favores e carreiras dentro da prisão como um negócio, e o advogado Billy Flynn, um mestre da manipulação midiática cujo talento não está na lei, mas na criação de narrativas. Flynn transforma o sistema judicial em um teatro de variedades, vendendo aos jornais e ao público a história que eles querem consumir. Ele pega a novata Roxie e a molda na persona da “pecadora arrependida”, uma figura trágica e glamorosa que rapidamente captura a imaginação da cidade. A ascensão de Roxie ofusca a outrora proeminente Velma, dando início a uma rivalidade feroz não por justiça ou liberdade, mas pelo bem mais precioso de Chicago: a atenção da imprensa.

A direção de Rob Marshall estabelece uma distinção visual e narrativa fundamental que define a obra: a realidade é filmada com uma paleta crua e sombria, enquanto os números musicais explodem como fantasias estilizadas dentro da mente de Roxie. As sequências de canto e dança não são interrupções, mas manifestações da sua psique, uma forma de processar a sordidez de sua situação através da linguagem que ela entende, a do espetáculo. O filme opera como uma ilustração quase literal da Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, onde a representação da realidade suplanta a própria realidade. O julgamento de Roxie não é um processo judicial; é a maior performance de sua vida, coreografada por Flynn para um júri que atua como plateia. ‘Chicago’ examina a simbiose entre crime e entretenimento, a efemeridade da notoriedade e a verdade desconfortável de que, em uma cultura obcecada pela superfície, a autenticidade é apenas mais um papel a ser desempenhado. A absolvição ou a condenação tornam-se menos importantes do que a capacidade de manter o público aplaudindo até que a próxima grande história surja.

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