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Filme: “Pele de Asno” (1970), Jacques Demy

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Jacques Demy, mestre do musical francês, entrega em “Pele de Asno” uma fábula extravagante, colorida e deliciosamente subversiva. Catherine Deneuve, no auge de sua beleza etérea, é uma princesa confrontada com um dilema grotesco: o desejo incestuoso de seu próprio pai, o Rei. Para escapar desse destino perturbador, ela segue os conselhos de sua madrinha fada, interpretada com charme e sagacidade por Delphine Seyrig, e exige presentes cada vez mais absurdos para conceder sua mão em casamento. Um vestido da cor do tempo, outro da cor da lua e, finalmente, um da cor do sol. Frustrado, o Rei cumpre as exigências, mas persiste em sua obsessão. Desesperada, a princesa veste uma pele de asno fedorenta e foge do reino, buscando refúgio em uma vida humilde.

O filme, lançado em 1970, é uma adaptação do conto de fadas de Charles Perrault, mas Demy o transforma em algo muito mais provocador do que uma simples história infantil. Sob a superfície de fantasia e canções açucaradas, reside uma crítica mordaz à hipocrisia da nobreza, aos papéis de gênero impostos e à objetificação do corpo feminino. A protagonista, disfarçada em sua pele de animal, experimenta uma liberdade paradoxal, podendo observar o mundo sem ser definida por sua beleza e status.

“Pele de Asno” é um banquete visual, com figurinos suntuosos, cenários exuberantes e uma paleta de cores vibrante que beira o kitsch. A música de Michel Legrand, onipresente e inesquecível, embala a narrativa com melodias ora alegres, ora melancólicas. Mas a beleza estética não mascara a complexidade dos temas abordados. A questão do incesto, embora tratada com delicadeza e simbolismo, paira como uma sombra sobre a narrativa, perturbando a aparente leveza da fábula. O filme, portanto, pode ser visto como uma exploração do conceito de “amor fati”, a aceitação do destino, mesmo quando ele se apresenta de forma brutal e inesperada. A princesa, ao invés de sucumbir à sua sina, escolhe um caminho de autodescoberta e transformação, encontrando a liberdade na sua própria abjeção. “Pele de Asno” permanece, décadas depois, uma obra singular, um conto de fadas para adultos que encanta, incomoda e provoca reflexões sobre a natureza do desejo, do poder e da identidade.

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Jacques Demy, mestre do musical francês, entrega em “Pele de Asno” uma fábula extravagante, colorida e deliciosamente subversiva. Catherine Deneuve, no auge de sua beleza etérea, é uma princesa confrontada com um dilema grotesco: o desejo incestuoso de seu próprio pai, o Rei. Para escapar desse destino perturbador, ela segue os conselhos de sua madrinha fada, interpretada com charme e sagacidade por Delphine Seyrig, e exige presentes cada vez mais absurdos para conceder sua mão em casamento. Um vestido da cor do tempo, outro da cor da lua e, finalmente, um da cor do sol. Frustrado, o Rei cumpre as exigências, mas persiste em sua obsessão. Desesperada, a princesa veste uma pele de asno fedorenta e foge do reino, buscando refúgio em uma vida humilde.

O filme, lançado em 1970, é uma adaptação do conto de fadas de Charles Perrault, mas Demy o transforma em algo muito mais provocador do que uma simples história infantil. Sob a superfície de fantasia e canções açucaradas, reside uma crítica mordaz à hipocrisia da nobreza, aos papéis de gênero impostos e à objetificação do corpo feminino. A protagonista, disfarçada em sua pele de animal, experimenta uma liberdade paradoxal, podendo observar o mundo sem ser definida por sua beleza e status.

“Pele de Asno” é um banquete visual, com figurinos suntuosos, cenários exuberantes e uma paleta de cores vibrante que beira o kitsch. A música de Michel Legrand, onipresente e inesquecível, embala a narrativa com melodias ora alegres, ora melancólicas. Mas a beleza estética não mascara a complexidade dos temas abordados. A questão do incesto, embora tratada com delicadeza e simbolismo, paira como uma sombra sobre a narrativa, perturbando a aparente leveza da fábula. O filme, portanto, pode ser visto como uma exploração do conceito de “amor fati”, a aceitação do destino, mesmo quando ele se apresenta de forma brutal e inesperada. A princesa, ao invés de sucumbir à sua sina, escolhe um caminho de autodescoberta e transformação, encontrando a liberdade na sua própria abjeção. “Pele de Asno” permanece, décadas depois, uma obra singular, um conto de fadas para adultos que encanta, incomoda e provoca reflexões sobre a natureza do desejo, do poder e da identidade.

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