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Filme: “Hairspray – E Éramos Todos Jovens” (1988), John Waters

Em uma Baltimore de 1962, pintada com as cores saturadas de um sonho de lanchonete, a rotina de Tracy Turnblad, interpretada com uma energia contagiante por Ricki Lake, é ditada pelo ritmo do “The Corny Collins Show”. Este programa de dança televisivo local é o panteão de adolescentes brancos, esbeltos e com penteados impecavelmente laqueados.…


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Em uma Baltimore de 1962, pintada com as cores saturadas de um sonho de lanchonete, a rotina de Tracy Turnblad, interpretada com uma energia contagiante por Ricki Lake, é ditada pelo ritmo do “The Corny Collins Show”. Este programa de dança televisivo local é o panteão de adolescentes brancos, esbeltos e com penteados impecavelmente laqueados. Para Tracy, uma jovem cuja figura e entusiasmo transbordam os padrões estéticos da época, conseguir um lugar no show é mais do que um capricho, é uma afirmação de existência. Apoiada por sua mãe Edna, uma dona de casa monumental e irônica vivida por Divine em um dos papéis mais memoráveis do cinema independente, e por seu pai Wilbur, dono de uma loja de artigos de piada, Tracy navega um mundo que insiste em lhe dizer não.

A trama se adensa quando a ambição de Tracy colide com duas frentes de exclusão social. A primeira é o preconceito estético, personificado pela mimada Amber Von Tussle e seus pais, Franklin e Velma, donos da emissora que veicula o programa e ferrenhos defensores de uma América ariana e conformista. A segunda, e mais profunda, é a segregação racial que limita os dançarinos negros a uma única aparição mensal no “Negro Day”. A amizade de Tracy com Seaweed J. Stubbs e sua admiração pela habilidade dos dançarinos negros a transformam de uma simples aspirante a uma agente de mudança. O que começa como um desejo por fama e um novo passo de dança evolui para uma campanha pela integração no palco do Corny Collins, culminando em um protesto que coloca o establishment da cidade em alerta.

John Waters não constrói um drama social convencional. Pelo contrário, ele utiliza a superfície vibrante e kitsch da cultura pop do início dos anos 60 como um veículo para uma crítica ácida. A obsessão do filme pela televisão e pela imagem é central. O “The Corny Collins Show” funciona quase como um simulacro perfeito, no sentido que Baudrillard daria ao termo, uma realidade fabricada e hiper-real que se apresenta como mais verdadeira que a própria Baltimore, excluindo sistematicamente o que é considerado indesejável, seja um corpo fora do padrão ou uma pele de outra cor. A presença de Tracy, com sua autenticidade corporal e sua defesa da integração, não apenas perturba o status quo narrativo, ela rompe a própria simulação, expondo a artificialidade das normas que o programa celebra.

O trabalho de Waters é, portanto, um ato de subversão alegre. Ele não apela à solenidade para discutir temas como racismo e preconceito; ele os envolve em lantejoulas, spray de cabelo e uma trilha sonora irresistível. A escalação de Divine, uma figura da contracultura, para o papel de uma mãe suburbana e, simultaneamente, para o do gerente racista da estação de TV, é um golpe de mestre que encapsula a dualidade do filme: uma celebração da estética popular e uma crítica implacável aos seus fundamentos excludentes. Hairspray opera com a lógica de um cavalo de Troia estético. Sua aparência inofensiva e seu humor contagiante permitem que ideias sobre justiça social e aceitação se infiltrem na consciência do espectador sem o peso do discurso panfletário, provando que a comédia, em mãos habilidosas, pode ser uma das mais potentes ferramentas de comentário cultural.


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