Na Polônia sob ocupação nazista, o mundo de Michał é estilhaçado em um instante. Após testemunhar a execução de sua esposa, Helena, e de seu filho, ele escapa e busca uma forma de reagir, envolvendo-se com a rede de combatentes clandestinos. Seu caminho, no entanto, é abruptamente desviado quando ele encontra Marta, uma mulher grávida que é a imagem exata de sua falecida esposa. A partir deste encontro, a narrativa de “The Third Part of the Night”, o filme de estreia de Andrzej Żuławski, abandona qualquer pretensão de um drama de guerra convencional e mergulha em uma lógica febril, onde a dor e a memória se tornam indistinguíveis da realidade. A obsessão de Michał em proteger esta sósia o leva por uma Varsóvia fantasmagórica, um cenário menos histórico e mais psicológico.
A desorientação do protagonista é acentuada por seu novo trabalho: ele se torna um alimentador de piolhos no Instituto Weigl, um centro de pesquisa que desenvolvia uma vacina contra o tifo. Ali, caixas com os insetos são presas ao seu corpo para que se alimentem de seu sangue. Este ato, historicamente verídico para muitos poloneses da época, funciona como o motor físico da desintegração psíquica de Michał. Enquanto seu sangue é drenado, as fronteiras entre alucinação e fato se dissolvem, e a câmera de Żuławski acompanha este colapso com uma energia convulsiva, movendo-se com a mesma urgência e pânico de seu personagem central. A guerra deixa de ser um evento externo para se tornar uma condição biológica, uma praga que se alimenta de dentro para fora.
O que se revela não é uma história sobre oposição a um inimigo, mas sobre a impossibilidade de escapar de si mesmo. O motivo do doppelgänger, a mulher idêntica, atua como um gatilho para o que parece ser uma forma de eterna recorrência, onde Michał parece preso em um ciclo de repetição, no qual o passado não é algo que se recorda, mas algo que se revive incessantemente, cada vez com variações mais grotescas. O título, extraído do Livro do Apocalipse, aponta para uma catástrofe que é tanto coletiva quanto intensamente pessoal. Żuławski utiliza o contexto da Segunda Guerra Mundial para explorar como um evento de horror absoluto pode aniquilar a própria estrutura da identidade, deixando para trás apenas ecos, duplos e a pulsão de sobreviver a um trauma que se recusa a terminar. É um trabalho que estabelece a primazia do estado interior sobre a crónica dos factos, oferecendo uma visão visceral sobre a persistência da vida em meio ao absurdo da destruição.




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