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Filme: “A Última Tempestade” (1991), Peter Greenaway

Em ‘A Última Tempestade’, a adaptação de Peter Greenaway da peça de Shakespeare, a narrativa é menos uma história contada e mais um universo meticulosamente conjurado. O ponto de partida é familiar: Próspero, o Duque de Milão exilado, interpretado com uma gravidade irrefutável por John Gielgud, usa a magia contida em seus preciosos livros para…


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Em ‘A Última Tempestade’, a adaptação de Peter Greenaway da peça de Shakespeare, a narrativa é menos uma história contada e mais um universo meticulosamente conjurado. O ponto de partida é familiar: Próspero, o Duque de Milão exilado, interpretado com uma gravidade irrefutável por John Gielgud, usa a magia contida em seus preciosos livros para orquestrar uma vingança contra seus detratores, naufragados em sua ilha. Ele é o autor, o narrador e o deus de um microcosmo povoado por sua filha Miranda, o espírito Ariel e a criatura terrena Caliban. A trama shakespeariana serve como esqueleto, mas a carne, os nervos e o sangue são puramente Greenaway.

O que se desdobra é uma experiência de imersão em um palimpsesto visual. Greenaway abandona as convenções do cinema narrativo em favor de uma sobreposição constante de imagens, textos e figuras, como se a própria película fosse uma página de um manuscrito renascentista sendo escrita e reescrita em tempo real. Cada um dos vinte e quatro livros de Próspero gera uma faceta do mundo do filme, da água à anatomia, da cosmologia à cor. Corpos nus preenchem o ecrã, não como objeto de desejo, mas como elementos pictóricos numa composição viva, referenciando a pintura clássica e o estudo da forma humana. A voz de Gielgud domina a paisagem sonora, não apenas atuando, mas catalogando, descrevendo e controlando cada evento, reforçando a ideia de que tudo o que vemos é uma emanação direta de sua consciência e de sua biblioteca.

O filme opera como uma análise do próprio poder da criação, posicionando Próspero como um análogo do artista. Sua magia não é etérea, mas textual; sua ilha é um simulacro, uma realidade gerada e sustentada pela palavra escrita. A estética é uma sobrecarga barroca calculada, um excesso que reflete a mente de um homem que possui o conhecimento do mundo trancado em seus volumes. No entanto, essa onipotência é finita. A tempestade do título é o ato final, a grande performance antes de Próspero abdicar de seu poder, afogando os livros que lhe permitiram construir e manipular seu domínio. O gesto final de Próspero não é de derrota, mas de encerramento consciente, a dissolução de um mundo de artifício para um retorno a uma realidade sem a mediação da arte.


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