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Filme: “The Falls” (1980), Peter Greenaway

O universo cinematográfico de Peter Greenaway raramente se submete a descrições convencionais, e ‘The Falls’ (1980) prova ser um dos seus mais ambiciosos e peculiares empreendimentos. No cerne desta vasta obra, acompanhamos as consequências de um evento enigmático, o “Violent Unknown Event” (VUE), que há uma década aflige uma porção da população. Embora cerca de…


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O universo cinematográfico de Peter Greenaway raramente se submete a descrições convencionais, e ‘The Falls’ (1980) prova ser um dos seus mais ambiciosos e peculiares empreendimentos. No cerne desta vasta obra, acompanhamos as consequências de um evento enigmático, o “Violent Unknown Event” (VUE), que há uma década aflige uma porção da população. Embora cerca de 19 milhões de pessoas tenham sido afetadas, o filme centra-se especificamente em 92 indivíduos cujos nomes de família começam com a sílaba “FALL”. Estas pessoas desenvolveram habilidades ou condições incomuns, muitas vezes relacionadas a pássaros, voo ou elementos da natureza, e suas vidas se tornaram objeto de um meticuloso e obsessivo estudo governamental.

A narrativa se desdobra como um compêndio exaustivo, uma espécie de catálogo pseudocientífico ou enciclopédia audiovisual, onde cada um dos 92 ‘sujeitos’ é apresentado com sua ficha completa: nome, idade, ocupação e, crucialmente, a descrição detalhada de sua condição pós-VUE. O espectador é submergido em uma avalanche de informações verbais e visuais, com quadros estáticos, legendas densas e a narração monótona que detalha as particularidades de cada caso, do absurdamente poético ao trivialmente bizarro. Esta estrutura, por si só, é uma declaração. Greenaway transforma a rotina burocrática em espetáculo, expondo o frenético esforço humano para classificar, documentar e, em última instância, tentar compreender o incompreensível.

O filme, com sua repetição metódica e seu olhar quase antropológico sobre o excêntrico, instiga uma reflexão sobre a própria natureza do conhecimento e a fragilidade dos sistemas de categorização. Diante de fenômenos inexplicáveis, o instinto humano de impor ordem se manifesta em uma profusão de dados e teorias, muitas delas infundadas ou contraditórias. A obra não busca oferecer explicações definitivas para o VUE ou para as anomalias; ao invés disso, ela sublinha a inerente dificuldade em mapear o desconhecido com ferramentas convencionais, transformando o processo de pesquisa em uma forma de arte por si só.

Com uma duração que demanda dedicação e uma densidade informativa que exige atenção plena, ‘The Falls’ não é uma obra para consumo passivo. É um mergulho em um universo meticulosamente construído, onde a linguagem e a imagem se entrelaçam para criar uma experiência singular. Peter Greenaway, com sua visão inconfundível, constrói uma meditação peculiar sobre a informação, a burocracia e a persistente busca por significado em meio ao absurdo, situando-o firmemente no panteão dos autores mais singulares do cinema contemporâneo.


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