Um acidente bizarro com um cisne branco em frente a um zoológico sela o destino de três pessoas. Para os irmãos gémeos Oswald e Oliver Deuce, zoólogos obcecados com padrões e simetria, o evento representa a perda súbita das suas esposas. Para Alba Bewick, a condutora do veículo, significa a perda de uma perna. A partir deste ponto de partida grotesco, Peter Greenaway constrói uma narrativa onde o luto convencional é substituído por uma investigação metódica e perturbadora sobre a natureza da decomposição. Os irmãos Deuce, em vez de processarem a sua dor, canalizam-na para um projeto científico macabro: filmar, em time-lapse, o apodrecimento de vários organismos, começando por uma simples maçã e escalando em complexidade e ambição. A sua relação com Alba, que se torna uma espécie de musa da desintegração física, aprofunda a sua jornada por uma lógica que rege a vida e a morte, uma busca por um alfabeto biológico que explique o caos.
A obra funciona como uma espécie de memento mori secularizado, despido de qualquer sentimentalismo e reimaginado como um problema de taxonomia. A estética de Greenaway é a própria tese do filme. As suas composições rigidamente simétricas e a iluminação que evoca as naturezas-mortas de Vermeer não são meros adornos estilísticos, mas sim a manifestação visual da tentativa humana de impor ordem a um universo indiferente. O zoológico, um ambiente onde a natureza é enjaulada, catalogada e controlada, serve como o palco perfeito para este estudo quase forense. A busca dos gémeos por um sistema na decadência é uma exploração da própria pulsão científica e artística para documentar e compreender. O filme examina como a obsessão por uma estrutura pode se tornar a única resposta possível perante um evento radicalmente desestruturante, transformando a curiosidade mórbida numa forma peculiar de seguir em frente.









Deixe uma resposta