Em Nova York, 1964, um diplomata de uniforme militar discursa na ONU, articulando a lógica de um novo mundo. Na Sierra Maestra, anos antes, o mesmo homem, asmático e coberto de lama, ensina camponeses a ler e a atirar. Steven Soderbergh, em ‘Che: O Argentino’, opta por não contar uma vida, mas por dissecar um processo. O filme acompanha o médico Ernesto Guevara desde o seu desembarque em Cuba com Fidel Castro, em 1956, até a vitória da Revolução Cubana, em 1959. Intercalada com a cronologia da guerrilha, a narrativa salta para a visita de Che Guevara a Nova York, já como figura estabelecida do novo regime, oferecendo um contraponto intelectual e polido à brutalidade tática da guerra nas selvas.
A proposta de Soderbergh é deliberadamente antif dramática, aproximando-se de um realismo processual. A câmera na mão, operada pelo próprio diretor sob o pseudônimo de Peter Andrews, é mais um combatente na mata, registando a exaustão, a fome e as pequenas vitórias com uma intimidade quase documental. A paleta de cores dessaturada da guerrilha contrasta com o preto e branco granulado e elegante das cenas em Nova York, uma escolha estética que demarca a diferença entre o campo de batalha e o palco político. Benicio del Toro não interpreta Che; ele o habita com uma economia de gestos e uma fisicalidade palpável. Seu desempenho é construído nos detalhes: no manejo de um charuto, no esforço para respirar durante uma crise de asma, na autoridade silenciosa que impõe disciplina sobre seus homens.
A montagem paralela não serve apenas ao contraste; ela ilustra um conceito fundamental: a práxis, a união indissolúvel entre a teoria revolucionária e a sua aplicação prática e suada. Enquanto o Che da ONU teoriza sobre o anti-imperialismo, o Che da Sierra Maestra coloca essa teoria em movimento, organizando tropas, cuidando de feridos e tomando decisões táticas que definem o curso do conflito. O longa se afasta da construção de um ícone para se concentrar na engrenagem da revolução: uma campanha metódica, cheia de contratempos, doenças e o desafio logístico de gerir homens e recursos. O resultado é um cinema que informa antes de emocionar, um documento fascinante sobre como a engrenagem da história é movida, peça por peça, no terreno.









Deixe uma resposta