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Filme: “Fargo: Segunda Temporada” (2015), Randall Einhorn, Michael Uppendahl, Noah Hawley, Jeffrey Reiner, Keith Gordon, Adam Arkin

Numa América em pleno 1979, ainda sob a sombra da Guerra do Vietnã e embalada pelo discurso de mal-estar de Jimmy Carter, a neve de Luverne, Minnesota, está prestes a ser manchada de vermelho. O gatilho não é um plano elaborado ou uma traição mafiosa, mas um acidente bizarro. Peggy Blumquist, uma esteticista que sonha…


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Numa América em pleno 1979, ainda sob a sombra da Guerra do Vietnã e embalada pelo discurso de mal-estar de Jimmy Carter, a neve de Luverne, Minnesota, está prestes a ser manchada de vermelho. O gatilho não é um plano elaborado ou uma traição mafiosa, mas um acidente bizarro. Peggy Blumquist, uma esteticista que sonha com um seminário de autoajuda na Califórnia, atropela Rye Gerhardt, o filho mais novo de um clã criminoso local. Em vez de chamar a polícia, ela dirige para casa com o corpo de Rye alojado no para-brisa do carro, convencendo o seu marido, o açougueiro Ed Blumquist, de que a melhor solução é processar o problema no moedor de carne da família. Este ato de pânico suburbano acende o pavio de uma guerra de gangues que engole toda a região.

O que se desenrola a partir deste ponto é uma colisão em três frentes. De um lado, está a lei, representada por um jovem agente da polícia estadual, Lou Solverson, que já vimos como um veterano dono de restaurante na primeira temporada. Aqui, ele é um homem de família, cuja esposa luta contra o cancro, tentando impor alguma lógica a um mundo que parece cada vez mais irracional. Do outro lado, está a família Gerhardt, um império do crime à moda antiga, agora em crise de sucessão após o derrame do seu patriarca. A matriarca Floyd Gerhardt assume o controlo com uma autoridade fria, mas os seus filhos ambiciosos ameaçam implodir o negócio. A complicar tudo, chega uma terceira força: um sindicato corporativo de Kansas City, que vê a desordem dos Gerhardt como uma oportunidade para uma aquisição hostil, tratando o crime organizado com a mesma impessoalidade de uma fusão empresarial.

A direção, partilhada por um conjunto de talentos que entendem a gramática visual da década de 70, utiliza ecrãs divididos e uma paleta de cores desbotadas para enquadrar a ação. A violência é abrupta e desprovida de qualquer glamour, muitas vezes justaposta a momentos de uma comédia de erros tão absurda que se torna desconfortável. É nesta dissonância que a obra encontra a sua identidade. Os Blumquist não são mentores do crime; são um casal comum cuja tentativa de encobrir um erro os afunda cada vez mais num pântano de brutalidade. A sua jornada ilustra uma espécie de existencialismo do meio-oeste, onde a busca por autorrealização de Peggy, alimentada por revistas e seminários motivacionais, se torna um catalisador para o caos, um ato de vontade que ignora completamente a realidade e as suas consequências.

Os personagens são construídos com uma precisão notável. Peggy Blumquist não é apenas uma mulher ingénua; ela é a personificação de uma ambição frustrada, uma força da natureza em negação, cuja determinação em controlar a sua própria narrativa a torna perigosamente imprevisível. Ed, o seu marido, é o seu oposto: um homem de decência simples, arrastado por uma lealdade cega para um pesadelo que ele nunca poderia conceber. Lou Solverson atua como o centro moral, mas um centro cansado e pragmático, que já viu o suficiente da natureza humana para não ter ilusões. Ele busca a ordem não por idealismo, mas por uma necessidade fundamental de proteger a sua família do absurdo que se infiltra pelas frestas da vida quotidiana.

E depois há os discos voadores. A presença recorrente de OVNIs, observando silenciosamente os massacres e os negócios escusos lá em baixo, funciona como o elemento final de estranheza cósmica. Não é uma distração, mas um comentário sobre a própria natureza da história. Diante de fenómenos inexplicáveis, os conflitos humanos, as guerras por território e as tentativas desesperadas de Peggy para se “tornar a sua melhor versão” parecem simultaneamente monumentais e insignificantes. A temporada examina a fina camada de civilidade que cobre a violência latente na busca pelo sonho americano, mostrando como um único momento de má decisão pode fazer com que tudo se desfaça de maneiras sangrentas, confusas e, por vezes, inexplicavelmente cómicas.


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