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Filme: “A Cruz de Ferro” (1977), Sam Peckinpah

Na lama e no caos da Frente Oriental em 1943, onde o exército alemão começa a se desintegrar sob a pressão soviética, a sobrevivência é a única ideologia que importa. É neste cenário que encontramos o Sargento Rolf Steiner, um suboficial cínico e competente, condecorado mas completamente desiludido com a guerra, cuja única lealdade é…


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Na lama e no caos da Frente Oriental em 1943, onde o exército alemão começa a se desintegrar sob a pressão soviética, a sobrevivência é a única ideologia que importa. É neste cenário que encontramos o Sargento Rolf Steiner, um suboficial cínico e competente, condecorado mas completamente desiludido com a guerra, cuja única lealdade é para com os homens que sangram ao seu lado. A rotina de combate brutal do seu pelotão é subitamente alterada com a chegada do Capitão Hauptmann Stransky, um aristocrata prussiano transferido da França que nunca viu combate real, mas que carrega uma ambição desmedida: obter a Cruz de Ferro, a mais alta condecoração militar, a qualquer custo.

O que se desenrola em ‘A Cruz de Ferro’ não é o conflito familiar entre nações, mas uma guerra interna, um choque de classes e filosofias dentro da própria Wehrmacht. Stransky, cego pela sua busca por glória, enxerga os seus homens como meros instrumentos para alcançar seu objetivo. Steiner, por outro lado, vê a obsessão do capitão como a manifestação final da loucura que move toda a máquina de guerra. A narrativa avança através de uma série de ordens perigosas e decisões questionáveis de Stransky, que culminam em uma missão suicida atrás das linhas inimigas. É neste ponto que a tensão entre os dois homens atinge um ponto de ebulição, forçando Steiner a confrontar não apenas o inimigo russo, mas a hipocrisia e a corrupção moral de seus próprios superiores. A medalha, para Stransky, não é um símbolo de bravura, mas um passaporte social, enquanto para Steiner, a própria ideia de honra em meio à carnificina industrializada é uma piada de mau gosto.

Sam Peckinpah filma a guerra sem qualquer traço de romantismo. A sua câmera não se desvia da sujeira, do sangue e da exaustão. A famosa utilização da câmara lenta não serve para estetizar a violência, mas para dissecar os seus momentos, para expor a mecânica grotesca de um corpo a ser perfurado por uma bala ou dilacerado por uma explosão. Neste contexto, Steiner personifica uma espécie de revolta absurda, um conceito que Albert Camus exploraria em sua filosofia. Diante de um universo militar e existencial desprovido de sentido, a única ação coerente para Steiner é a recusa em participar da farsa. Ele não luta pela pátria ou por uma ideologia; ele luta para manter vivos os seus camaradas e para expor a fraude que Stransky representa. O filme de Peckinpah é um documento cinematográfico sobre a desintegração do comando e da moral no campo de batalha, onde a única verdade que resta é o som de uma gargalhada diante do abismo.


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