Charley Varrick, um piloto agrícola com uma carreira paralela em pequenos assaltos a bancos, executa o que deveria ser seu último golpe numa remota agência do Novo México. O plano, concebido com uma precisão modesta, rapidamente se desfaz em violência, resultando em baixas de ambos os lados e uma fuga desesperada. Apenas Varrick e seu parceiro mais jovem, Harman, escapam. A surpresa, no entanto, não está na brutalidade do assalto, mas no seu resultado: em vez dos esperados milhares, eles encontram quase setecentos e cinquenta mil dólares. Uma quantia que não pertence a um banco de cidade pequena, mas sim ao dinheiro sujo da Máfia, ali depositado para lavagem. A súbita fortuna transforma-se numa sentença de morte, pois Varrick compreende imediatamente que a organização criminosa não descansará até recuperar o seu dinheiro e eliminar quem o levou.
O que se segue é uma caçada implacável orquestrada por Don Siegel com uma eficiência cortante, marca registrada de sua direção. A Máfia despacha Molly, um executor impassível e brutal interpretado por Joe Don Baker, para localizar os ladrões. Molly não é um gangster comum; ele é um predador metódico que opera com uma lógica sádica, deixando um rastro de destruição pelo caminho. A narrativa se estabelece como um duelo de inteligências. De um lado, a força bruta e os recursos quase ilimitados de um sindicato do crime. Do outro, a astúcia de Charley Varrick, um homem que se autodenomina “o último dos independentes”. Walter Matthau, num papel que subverte sua imagem de comediante, entrega uma performance contida e brilhante, personificando um indivíduo cuja principal arma é a capacidade de pensar vários passos à frente, utilizando a burocracia e a previsibilidade dos seus adversários contra eles mesmos.
A arquitetura do filme transcende o thriller de assalto convencional. Siegel constrói um universo cínico, banhado pelo sol impiedoso do sudoeste americano, onde a linha entre a lei, o crime organizado e o individualismo pragmático é quase inexistente. A sobrevivência de Varrick não depende de força física, mas de uma aplicação quase filosófica da lógica e do controle emocional perante o caos. Ele opera com uma economia de movimentos e de pânico, uma demonstração de como a razão pode ser a única ferramenta contra uma força sistémica e irracionalmente violenta. O Homem que Burlou a Máfia é um produto exemplar do cinema americano dos anos 70, um estudo de personagem disfarçado de filme de ação, que examina a obsolescência do indivíduo engenhoso num mundo cada vez mais corporativo e impessoal, seja ele legal ou criminoso.




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