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Filme: “Turistas” (2012), Ben Wheatley

Chris quer mostrar a Tina o seu mundo, um universo encapsulado numa modesta caravana e mapeado por paragens nos mais insossos e excêntricos pontos turísticos do norte de Inglaterra. Para Tina, sufocada pela sua mãe possessiva e pelo luto por um cãozinho falecido, esta viagem é uma promessa de liberdade e de um romance que…


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Chris quer mostrar a Tina o seu mundo, um universo encapsulado numa modesta caravana e mapeado por paragens nos mais insossos e excêntricos pontos turísticos do norte de Inglaterra. Para Tina, sufocada pela sua mãe possessiva e pelo luto por um cãozinho falecido, esta viagem é uma promessa de liberdade e de um romance que finalmente parece real. Ben Wheatley, em ‘Turistas’, estabelece este cenário com um realismo desconcertante, onde a esperança de uma semana idílica colide com o desconforto palpável de duas pessoas que talvez não se conheçam tão bem quanto imaginam. O filme começa como um retrato agridoce e familiar do quotidiano britânico, com as suas paisagens cinzentas, chávenas de chá e conversas constrangedoras.

A viagem, no entanto, desvia-se do percurso planeado quando um ato de irritação momentânea de Chris resulta numa morte abrupta. O incidente, tratado com uma normalidade aterradora, não destrói a relação; pelo contrário, alimenta-a. Tina, em vez de recuar em horror, vê no ato do seu companheiro uma estranha forma de poder e validação. A cumplicidade floresce em terreno fértil de ressentimento acumulado contra um mundo que parece conspirar para os menosprezar. A partir daqui, o roteiro, co-escrito pelos próprios protagonistas Steve Oram e Alice Lowe, transforma o que seria um simples road movie numa espiral de violência motivada por queixas mesquinhas: um turista que deita lixo no chão, um escritor pretensioso, um grupo barulhento.

O que se segue é uma escalada onde cada paragem turística, do Museu do Lápis ao Viaduto de Ribblehead, se torna o palco de mais uma transgressão. Wheatley filma estes atos com uma distância fria, focando-se mais na reação e na dinâmica do casal do que no impacto gráfico da violência. É aqui que o filme revela a sua inteligência mordaz. Não se trata de uma glorificação, mas de uma dissecação de carácteres. A noção da banalidade do mal encontra uma expressão quase documental; os crimes de Chris e Tina não nascem de uma ideologia grandiosa ou de uma psicopatia calculada, mas da monotonia de vidas pequenas que colide com um desejo desmedido de afirmação. São as frustrações diárias, a inveja de classe e a necessidade de se sentir especial que armam as suas mãos.

À medida que a contagem de corpos aumenta, a dinâmica de poder entre o casal torna-se o verdadeiro motor da narrativa. Tina começa a desenvolver o seu próprio apetite pela transgressão, desafiando a liderança de Chris e criando uma competição tóxica. A comédia de humor negro, sempre presente no diálogo seco e nas situações absurdas, transforma-se numa análise mordaz da codependência e da forma como as pessoas podem projetar as suas piores qualidades umas nas outras. O clímax não oferece catarse ou redenção, mas sim a conclusão lógica e sombria de um pacto iniciado por uma pequena infração. ‘Turistas’ opera como uma sátira social afiada sobre a ira reprimida que ferve sob a superfície da civilidade britânica, um estudo sobre como o amor e o assassinato podem, assustadoramente, partilhar a mesma origem: a necessidade desesperada de ser visto.


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