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Filme: “Almoço na Relva” (1959), Jean Renoir

Na Provença banhada pelo sol, o professor Étienne Alexis é o arauto de um futuro perfeitamente organizado. Candidato à presidência da Europa Unida, ele defende com eloquência científica a inseminação artificial como o caminho para uma humanidade livre das paixões desordenadas e dos acasos da biologia. Seu universo é asséptico, sua lógica é impecável e…


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Na Provença banhada pelo sol, o professor Étienne Alexis é o arauto de um futuro perfeitamente organizado. Candidato à presidência da Europa Unida, ele defende com eloquência científica a inseminação artificial como o caminho para uma humanidade livre das paixões desordenadas e dos acasos da biologia. Seu universo é asséptico, sua lógica é impecável e seu noivado com a aristocrata alemã Ingrid é mais um acordo de conveniência do que um arroubo do coração. Tudo em sua vida é um projeto de controle. Durante um piquenique televisionado para promover suas ideias, seu discurso sobre a supremacia da razão é subitamente interrompido por uma força que a ciência não pode prever: um vento impetuoso, quase mitológico, que varre a paisagem, derruba equipamentos, levanta saias e liberta os instintos reprimidos de todos os presentes. Nesse caos delicioso, Alexis se vê despido de suas certezas e de suas roupas, encontrando refúgio nas águas de um rio ao lado de Nénette, uma jovem camponesa cuja existência é a antítese de sua filosofia.

Jean Renoir, em um de seus últimos e mais vibrantes trabalhos, orquestra um embate visual e temático entre a rigidez do progresso e a sensualidade anárquica da natureza. O filme, filmado em cores que evocam a paleta impressionista que seu pai, o pintor Auguste Renoir, tanto celebrou, não se limita a uma simples comédia de costumes. É uma fábula maliciosa sobre a fragilidade dos sistemas humanos quando confrontados com o poder primordial da vida. A câmera de Renoir captura a textura da luz, o movimento da água e a vitalidade dos corpos com um prazer quase pagão. A figura de um flautista rústico, que surge como uma encarnação do deus Pã, funciona como o catalisador que desfaz a ordem civilizada, sugerindo que sob a fina camada de racionalidade moderna pulsa uma energia dionisíaca, um desejo irrefreável por conexão e fertilidade que nenhuma teoria pode conter.

A jornada de Étienne Alexis não é uma conversão dramática, mas um despertar gradual e cômico para as sensações que sua ideologia tentava erradicar. O confronto não é entre o bem e o mal, mas entre dois princípios de existência: a lógica fria do laboratório contra a sabedoria orgânica do campo. Renoir não oferece um manifesto reacionário contra a ciência, mas sim um comentário espirituoso sobre a arrogância de acreditar que a complexidade da experiência humana pode ser totalmente planejada ou domesticada. O humor nasce da colisão entre a pompa intelectual e a simplicidade terrena, transformando o que poderia ser um pesado debate filosófico em uma celebração leve e profundamente humanista do acaso, do desejo e da beleza encontrada na imperfeição do mundo natural. É um cinema que respira, pulsante de cor e de uma alegria contagiante.


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