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Filme: “As Três Faces do Medo” (1963), Mario Bava

Mario Bava, com a precisão de um cirurgião manipulando a ansiedade do espectador, apresenta em As Três Faces do Medo uma antologia que funciona como um estudo sobre as diferentes texturas do pavor. A obra, apresentada pelo icônico Boris Karloff, que aqui atua como mestre de cerimônias e participante, segmenta o medo em três narrativas…


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Mario Bava, com a precisão de um cirurgião manipulando a ansiedade do espectador, apresenta em As Três Faces do Medo uma antologia que funciona como um estudo sobre as diferentes texturas do pavor. A obra, apresentada pelo icônico Boris Karloff, que aqui atua como mestre de cerimônias e participante, segmenta o medo em três narrativas distintas, cada uma explorando uma faceta particular da apreensão humana. O filme se move do thriller psicológico moderno para o horror gótico folclórico e, finalmente, para o pavor sobrenatural puro, demonstrando uma versatilidade notável no manejo do suspense e da atmosfera.

O primeiro conto, “O Telefone”, mergulha na paranoia urbana. Uma mulher, sozinha em seu apartamento, é atormentada por chamadas anônimas que revelam um conhecimento íntimo e ameaçador de seu passado. Bava constrói a tensão não com o que é visto, mas com o que é ouvido e sugerido, estabelecendo um protótipo para o giallo que ele mesmo ajudaria a consagrar. A segunda história, “Os Wurdalaks”, nos transporta para a Rússia rural do século XIX, adaptando um conto de Aleksey Tolstoy. Uma família patriarcal aguarda o retorno de seu líder, que pode ter sido transformado em uma criatura vampírica que se alimenta do sangue daqueles que mais ama. O horror aqui é íntimo e trágico, centrado na corrupção do laço familiar. O segmento final, “A Gota de Água”, é um exercício de pavor atmosférico. Uma enfermeira, ao preparar o corpo de uma médium recém-falecida, rouba um anel de seu dedo, desencadeando uma perseguição fantasmagórica marcada pelo som incessante de uma gota d’água.

A análise da obra revela uma curadoria deliberada das formas de medo. Bava não está apenas contando histórias de terror; ele está dissecando os seus mecanismos. A paleta cromática e a iluminação mudam drasticamente entre os segmentos, refletindo a natureza de cada ameaça. Em “O Telefone”, a fotografia é mais contida e realista, enquanto “Os Wurdalaks” explode em cores primárias saturadas, evocando uma pintura gótica. Já “A Gota de Água” emprega uma iluminação expressionista e um design de som que transforma um ruído banal em um agente de tortura psicológica. A experiência do medo, neste filme, aproxima-se de um conceito fenomenológico: não é o objeto temido que importa tanto quanto a maneira como a sua presença, real ou imaginada, reconfigura a percepção da realidade do personagem, aprisionando-o em um estado de alerta constante.

A presença de Karloff confere ao projeto uma gravidade clássica, mas a quebra da quarta parede no final, revelando a artificialidade do cenário, é um gesto de maestria. Bava expõe o truque sem diminuir o efeito, um aceno de cumplicidade ao público que entende a mecânica do cinema. As Três Faces do Medo permanece um documento fundamental sobre como o horror pode ser articulado visual e sonoramente. Ele influenciou gerações de cineastas e até mesmo a música, emprestando seu título em inglês, Black Sabbath, a uma certa banda de Birmingham. É uma demonstração calculada de como construir mundos de inquietação, cada um com suas próprias regras e sua própria forma de assombrar.


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