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Filme: “Antes que o Verão Termine” (2017), Maryam Goormaghtigh

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A iminência de uma despedida serve como motor para ‘Antes que o Verão Termine’, o docu-ficção da realizadora Maryam Goormaghtigh. A premissa é direta: após cinco anos a estudar em Paris, o iraniano Arash está de malas prontas para voltar a Teerão. Seus dois melhores amigos, Hossein e Ashkan, inconformados com o fim iminente da sua dinâmica, engendram um plano de última hora. A missão deles é sequestrar Arash para uma viagem de carro pelo sul de França, numa tentativa descontraída e algo desesperada de o fazer mudar de ideias antes que o verão, e a sua amizade como a conhecem, chegue ao fim.

O que se segue não é um road movie convencional com destinos claros ou um clímax dramático. A viagem é um percurso errante, quase letárgico, marcado por praias ensolaradas, noites mal dormidas e uma sucessão de interações com desconhecidos que acentuam o isolamento e a cumplicidade do trio. As conversas, filmadas com uma câmara na mão que os acompanha como um quarto passageiro, oscilam entre provocações juvenis sobre relacionamentos e flertes, e discussões mais profundas sobre identidade, pertencimento e o sentimento de não estar completamente em casa em lugar nenhum. A estrutura híbrida do filme, onde os rapazes interpretam versões de si mesmos, dissolve a fronteira entre a performance e a realidade, conferindo uma autenticidade palpável às suas interações e à melancolia que paira sobre eles.

A obra de Goormaghtigh opera com uma inteligência subtil ao examinar a natureza da amizade masculina e a experiência do exílio sem recorrer a sentimentalismos. O verdadeiro conflito não é se Arash ficará ou partirá, mas sim a forma como os três navegam neste limbo temporal. Há uma espécie de saudade do agora, a melancolia de sentir falta de um momento enquanto ele ainda acontece, que permeia cada cena. Este sentimento é o núcleo do filme, uma exploração sobre como o fim anunciado de algo redefine o seu presente. O humor surge de forma orgânica, na dinâmica de provocações e no desconforto social do trio, funcionando como um contraponto agridoce à seriedade da sua situação.

No final, ‘Antes que o Verão Termine’ documenta menos uma jornada para convencer um amigo e mais o processo de aceitação de uma perda inevitável. É um registo delicado e sem artifícios sobre aquele período específico da vida em que os futuros divergem e as amizades são postas à prova, não por conflitos, mas pela simples e inexorável passagem do tempo. O filme captura com precisão a beleza e a tristeza de um último verão juntos, deixando uma impressão duradoura sobre a impermanência dos laços que nos definem.

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A iminência de uma despedida serve como motor para ‘Antes que o Verão Termine’, o docu-ficção da realizadora Maryam Goormaghtigh. A premissa é direta: após cinco anos a estudar em Paris, o iraniano Arash está de malas prontas para voltar a Teerão. Seus dois melhores amigos, Hossein e Ashkan, inconformados com o fim iminente da sua dinâmica, engendram um plano de última hora. A missão deles é sequestrar Arash para uma viagem de carro pelo sul de França, numa tentativa descontraída e algo desesperada de o fazer mudar de ideias antes que o verão, e a sua amizade como a conhecem, chegue ao fim.

O que se segue não é um road movie convencional com destinos claros ou um clímax dramático. A viagem é um percurso errante, quase letárgico, marcado por praias ensolaradas, noites mal dormidas e uma sucessão de interações com desconhecidos que acentuam o isolamento e a cumplicidade do trio. As conversas, filmadas com uma câmara na mão que os acompanha como um quarto passageiro, oscilam entre provocações juvenis sobre relacionamentos e flertes, e discussões mais profundas sobre identidade, pertencimento e o sentimento de não estar completamente em casa em lugar nenhum. A estrutura híbrida do filme, onde os rapazes interpretam versões de si mesmos, dissolve a fronteira entre a performance e a realidade, conferindo uma autenticidade palpável às suas interações e à melancolia que paira sobre eles.

A obra de Goormaghtigh opera com uma inteligência subtil ao examinar a natureza da amizade masculina e a experiência do exílio sem recorrer a sentimentalismos. O verdadeiro conflito não é se Arash ficará ou partirá, mas sim a forma como os três navegam neste limbo temporal. Há uma espécie de saudade do agora, a melancolia de sentir falta de um momento enquanto ele ainda acontece, que permeia cada cena. Este sentimento é o núcleo do filme, uma exploração sobre como o fim anunciado de algo redefine o seu presente. O humor surge de forma orgânica, na dinâmica de provocações e no desconforto social do trio, funcionando como um contraponto agridoce à seriedade da sua situação.

No final, ‘Antes que o Verão Termine’ documenta menos uma jornada para convencer um amigo e mais o processo de aceitação de uma perda inevitável. É um registo delicado e sem artifícios sobre aquele período específico da vida em que os futuros divergem e as amizades são postas à prova, não por conflitos, mas pela simples e inexorável passagem do tempo. O filme captura com precisão a beleza e a tristeza de um último verão juntos, deixando uma impressão duradoura sobre a impermanência dos laços que nos definem.

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