Himizu, de Sion Sono, emerge como um estudo visceral da adolescência confrontada com o abismo da desilusão. Shota Sometani, no papel do jovem Sumida, entrega uma performance brutalmente honesta, imersa em cinismo e violência, elementos que moldam sua tentativa desesperada de construir uma vida comum em meio ao caos. A obra, inicialmente inspirada no mangá homônimo de Minoru Furuya, é radicalmente ressignificada pelo tsunami de 2011 no Japão, que se torna um pano de fundo implacável para a narrativa.
O enredo segue Sumida e Keiko, interpretada por Fumi Nikaido, ambos estudantes secundaristas que navegam lares disfuncionais e um futuro aparentemente predeterminado pela miséria. As interações entre os dois, marcadas por uma agressividade verbal e física, revelam uma busca desesperada por conexão e um grito silencioso por ajuda. A fragilidade da esperança se manifesta nas tentativas de Sumida em manter em funcionamento a locadora de barcos da família, um projeto que se torna um símbolo da sua luta contra a inevitabilidade da ruína.
Sono, conhecido por seu estilo visual extravagante e narrativas extremas, aqui opta por uma abordagem mais contida, embora não menos impactante. A câmera acompanha de perto a deterioração física e emocional dos personagens, expondo a brutalidade de suas existências sem sentimentalismos desnecessários. A trilha sonora, dissonante e melancólica, amplifica a sensação de desamparo e desesperança que permeia a atmosfera do filme. Himizu, portanto, é uma representação sombria da busca por sentido em um mundo dilacerado pela tragédia, ecoando a ideia nietzschiana do eterno retorno, onde a repetição do sofrimento se torna a única constante na existência humana.









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