A premissa da série Up, concebida por Michael Apted, permanece uma das mais potentes da história do cinema documental: acompanhar um grupo de britânicos de diferentes estratos sociais a cada sete anos, começando em 1964. Em ’35 Up’, o quinto capítulo desta extraordinária experiência cinematográfica, os participantes atingem um ponto de inflexão crucial. A juventude idealista ou rebelde de ’21 Up’ e a ansiedade da consolidação de ’28 Up’ dão lugar a uma fase de realismo pragmático. As trajetórias de vida, antes abertas a inúmeras possibilidades, agora apresentam contornos muito mais definidos, com o peso das hipotecas, dos casamentos, dos divórcios e das carreiras estabelecidas ou frustradas. O filme examina como as fundações sociais, tão evidentes aos sete anos de idade, se manifestaram na vida adulta.
O que torna ’35 Up’ particularmente fascinante é a sua posição como um fulcro na meia-idade. Os sonhos não foram completamente esquecidos, mas foram drasticamente reajustados pela realidade. Vemos Tony, o garoto do East End que sonhava em ser jóquei, agora um taxista conformado com a estabilidade familiar. Acompanhamos a jornada complexa de Neil, que passa de uma criança promissora a um adulto à deriva pela Grã-Bretanha, cuja trajetória levanta questões profundas sobre saúde mental e apoio social. Em contrapartida, os rapazes da elite, como Andrew e John, navegam por carreiras jurídicas e pela vida familiar com uma segurança que parece quase predestinada. Apted não força uma tese, mas os padrões que emergem são eloquentes sobre a mobilidade e a inércia de classe na Inglaterra do final do século XX.
Michael Apted documenta o implacável chronos, a passagem quantitativa do tempo marcada pelos intervalos de sete anos, mas o que realmente magnetiza o espectador são os vislumbres do kairos, aqueles momentos qualitativos de decisão ou acaso que ocorreram entre um filme e outro e alteraram destinos. A relação do diretor com os participantes também se aprofunda e se complica. Eles já não são crianças curiosas ou jovens adultos dispostos a se expor. Aos 35, são seus pares, mais cientes do poder da edição e, por vezes, visivelmente cansados do escrutínio. Essa tensão adiciona uma camada metalinguística à obra, questionando a própria natureza da observação documental e a influência que ela exerce sobre as vidas que pretende apenas registrar. O resultado é um documento humano de valor incalculável, que oferece uma análise sóbria sobre como as sementes do início da vida florescem, ou murcham, sob o sol do meio-dia da existência.









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