Em Tóquio, 1926, o dramaturgo Shunko Matsuzaki encontra uma mulher enigmática chamada Shinako. A atração é imediata, mas a situação se complica quando ele descobre que ela pode ser a esposa de seu patrono, o abastado e excêntrico Tamawaki, que parece orquestrar os encontros do casal com um distanciamento perigoso. O que começa como um triângulo amoroso em meio à efervescente era Taisho, um período de colisão entre o tradicionalismo japonês e a modernidade ocidental, rapidamente se desfaz em uma sucessão de quadros oníricos. Matsuzaki é arrastado para um ciclo de eventos onde a identidade de Shinako flutua, os cenários se transformam como em um palco giratório e a causalidade é substituída por uma lógica poética e desconcertante.
Seijun Suzuki, em ‘Kagerô-za’, o segundo filme de sua Trilogia Taisho, abandona por completo as convenções narrativas para construir uma experiência audiovisual baseada na desorientação e na beleza plástica. A direção de arte emprega cores vibrantes que se descolam da lógica naturalista, e a mise-en-scène é deliberadamente teatral, com paredes que se movem e espaços que se conectam de maneira impossível. A jornada de Matsuzaki não é uma busca por respostas, mas uma imersão em um estado de dúvida permanente. As cenas se repetem com variações sutis, e personagens secundários, como um par de crianças alemãs que cantam canções melancólicas, aparecem e desaparecem, acentuando a sensação de que o mundo opera sob regras próprias e indecifráveis.
A obra dialoga com o conceito de simulacro, onde a cópia precede e determina o real. Matsuzaki escreve uma peça sobre seu romance, mas logo se torna incerto se a vida está imitando a arte ou se ele sempre esteve dentro de uma performance cujo autor ele desconhece. Suzuki utiliza a própria linguagem do cinema não para contar uma história, mas para investigar a natureza da percepção e da memória. A montagem cria justaposições chocantes, o som é usado de forma anti-naturalista e a performance dos atores, especialmente de Yusaku Matsuda como Matsuzaki, oscila entre o realismo e uma estilização que remete ao teatro kabuki.
Longe do ritmo frenético de seus filmes de ação para a Nikkatsu, ‘Kagerô-za’ é um trabalho de um cineasta em pleno controle de suas faculdades artísticas, livre para explorar suas obsessões temáticas com paixão e rigor formal. O filme se apresenta como um quebra-cabeça visual cuja solução é menos importante que o processo de sua contemplação. É uma peça de cinema hipnótica que se fixa na mente através de suas imagens fantasmagóricas e de sua atmosfera de sonho febril, um estudo sofisticado sobre desejo, identidade e a dissolução das fronteiras entre o palco da vida e a vida no palco.









Deixe uma resposta