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Filme: “A Mulher e o Marido” (1985), Albert Brooks

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Numa Hollywood onde a próxima grande ideia é a moeda mais valiosa, o roteirista Steven Phillips, interpretado pelo próprio diretor Albert Brooks, descobre que a sua conta está a descoberto. Após receber um prémio humanitário, é paradoxalmente informado pelo estúdio que perdeu o seu toque, o seu “edge”, e que os seus serviços já não são necessários. O pânico instala-se, e o bloqueio criativo que se segue é tão absoluto quanto a sua hipoteca é real. É o seu amigo e colega de sucesso, Jack (Jeff Bridges), que lhe oferece uma solução insólita e aparentemente infalível: ele tem uma musa. Não uma metáfora ou um ritual, mas uma pessoa de carne e osso chamada Sarah.

Interpretada por Sharon Stone com uma excentricidade calculada, Sarah é uma das nove musas da mitologia grega, agora a viver discretamente em Los Angeles e a prestar serviços de inspiração a uma clientela seleta que inclui nomes como James Cameron e Martin Scorsese. O que se desenrola a partir do momento em que Steven a contrata não é uma jornada etérea pela alma da criatividade, mas uma sátira mordaz sobre a sua mercantilização. A inspiração de Sarah tem um preço, e não é barato. Ela exige presentes da Tiffany’s, um quarto de hotel de luxo para as suas sestas e uma atenção constante às suas necessidades caprichosas. O filme de Albert Brooks desmonta com precisão cirúrgica a aura romântica do génio, substituindo-a por uma relação transacional que é, em si mesma, uma crítica à indústria do entretenimento.

Enquanto Steven se esforça para satisfazer as exigências de Sarah e extrair dela o argumento que salvará a sua carreira, a sua esposa, Laura (Andie MacDowell), também acaba por ser “abençoada” pela influência da musa. O resultado é um negócio de bolachas caseiras de sucesso meteórico, um subenredo que reforça a ideia central de que, em A Musa, a criatividade é menos um dom divino e mais um produto de consumo, passível de ser otimizado e comercializado como qualquer outro. Brooks questiona a mecânica do génio numa cultura de consumo, sugerindo que talvez a ideia platónica de uma forma pura de inspiração, quando canalizada pelo sistema de Hollywood, se transforme inevitavelmente num bem de luxo.

A obra funciona como uma comédia de costumes neurótica, típica de Brooks, mas o seu alcance é mais amplo. Através de um humor seco e de situações que beiram o absurdo, o filme investiga a ansiedade que define o processo criativo e a fragilidade do ego artístico. A incerteza sobre a autenticidade de Sarah, que paira sobre a narrativa, serve como a observação final: na busca desesperada por uma fonte externa de validação e sucesso, talvez a maior fraude seja aquela que o próprio criador está disposto a aceitar. O resultado é um comentário afiado sobre onde a inspiração termina e a transação começa, uma linha que apenas se tornou mais indefinida desde o seu lançamento.

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Numa Hollywood onde a próxima grande ideia é a moeda mais valiosa, o roteirista Steven Phillips, interpretado pelo próprio diretor Albert Brooks, descobre que a sua conta está a descoberto. Após receber um prémio humanitário, é paradoxalmente informado pelo estúdio que perdeu o seu toque, o seu “edge”, e que os seus serviços já não são necessários. O pânico instala-se, e o bloqueio criativo que se segue é tão absoluto quanto a sua hipoteca é real. É o seu amigo e colega de sucesso, Jack (Jeff Bridges), que lhe oferece uma solução insólita e aparentemente infalível: ele tem uma musa. Não uma metáfora ou um ritual, mas uma pessoa de carne e osso chamada Sarah.

Interpretada por Sharon Stone com uma excentricidade calculada, Sarah é uma das nove musas da mitologia grega, agora a viver discretamente em Los Angeles e a prestar serviços de inspiração a uma clientela seleta que inclui nomes como James Cameron e Martin Scorsese. O que se desenrola a partir do momento em que Steven a contrata não é uma jornada etérea pela alma da criatividade, mas uma sátira mordaz sobre a sua mercantilização. A inspiração de Sarah tem um preço, e não é barato. Ela exige presentes da Tiffany’s, um quarto de hotel de luxo para as suas sestas e uma atenção constante às suas necessidades caprichosas. O filme de Albert Brooks desmonta com precisão cirúrgica a aura romântica do génio, substituindo-a por uma relação transacional que é, em si mesma, uma crítica à indústria do entretenimento.

Enquanto Steven se esforça para satisfazer as exigências de Sarah e extrair dela o argumento que salvará a sua carreira, a sua esposa, Laura (Andie MacDowell), também acaba por ser “abençoada” pela influência da musa. O resultado é um negócio de bolachas caseiras de sucesso meteórico, um subenredo que reforça a ideia central de que, em A Musa, a criatividade é menos um dom divino e mais um produto de consumo, passível de ser otimizado e comercializado como qualquer outro. Brooks questiona a mecânica do génio numa cultura de consumo, sugerindo que talvez a ideia platónica de uma forma pura de inspiração, quando canalizada pelo sistema de Hollywood, se transforme inevitavelmente num bem de luxo.

A obra funciona como uma comédia de costumes neurótica, típica de Brooks, mas o seu alcance é mais amplo. Através de um humor seco e de situações que beiram o absurdo, o filme investiga a ansiedade que define o processo criativo e a fragilidade do ego artístico. A incerteza sobre a autenticidade de Sarah, que paira sobre a narrativa, serve como a observação final: na busca desesperada por uma fonte externa de validação e sucesso, talvez a maior fraude seja aquela que o próprio criador está disposto a aceitar. O resultado é um comentário afiado sobre onde a inspiração termina e a transação começa, uma linha que apenas se tornou mais indefinida desde o seu lançamento.

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