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Filme: “O Congresso Futurista” (2013), Ari Folman

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A atriz Robin Wright, interpretando uma versão ficcionalizada de si mesma, encara uma proposta que é ao mesmo tempo a salvação e o fim de sua carreira. Com um histórico de escolhas artísticas questionáveis e uma reputação de ser “difícil”, ela recebe uma oferta do estúdio Miramount: digitalizar completamente seu corpo e suas emoções. O estúdio passaria a ser dono de sua imagem, uma avatar jovem e perfeita, livre para ser escalada em qualquer blockbuster que eles desejarem, enquanto a Robin de carne e osso se aposenta, proibida de atuar para sempre. Pressionada pela necessidade de cuidar de seu filho, que sofre de uma condição degenerativa, ela aceita o acordo, entregando sua identidade artística em troca de segurança financeira e a promessa de um legado digital eterno.

Vinte anos se passam e o mundo mudou drasticamente. A tecnologia que digitalizou Robin evoluiu para algo muito mais imersivo. Agora, as pessoas não assistem mais a filmes; elas se tornam os filmes. Através de compostos químicos, a população pode viver em um estado de alucinação coletiva, um universo animado onde qualquer um pode ser quem quiser, inclusive a estrela de cinema Robin Wright. A atriz, agora mais velha, é convidada para o Congresso Futurista, um evento que acontece inteiramente nesta zona animada e psicodélica. Lá, ela descobre que o próximo passo do estúdio Miramount é transformar sua essência digital em um produto químico que permitirá que qualquer pessoa não apenas se pareça com ela, mas sinta o que ela sente, tornando a experiência de ser Robin Wright um bem de consumo.

Ari Folman utiliza a transição do live-action para uma animação lisérgica e fluida não como um artifício, mas como a própria gramática de seu universo. A primeira metade do filme, filmada com atores reais, estabelece a realidade fria e pragmática da indústria do entretenimento, onde a arte é um ativo e a idade uma doença. A segunda metade, um mergulho em um desenho animado que evoca os trabalhos de Max Fleischer sob o efeito de alucinógenos, representa a dissolução completa dessa realidade. A obra examina a mercantilização da identidade num nível fundamental, onde a cópia digital de uma pessoa adquire mais valor e realidade que o ser humano original, uma existência que já não se refere a um ponto de partida concreto. O que acontece quando a percepção se torna a única realidade e essa percepção pode ser comprada e vendida em um frasco?

No centro dessa exploração sobre tecnologia e identidade, permanece o drama humano e particular de uma mãe tentando se conectar com seu filho em um mundo que preza cada vez mais o artificial em detrimento do tangível. A jornada de Robin através das camadas de realidades sintéticas é impulsionada por uma busca por algo autêntico, uma âncora em meio a uma inundação de estímulos fabricados. O Congresso Futurista, baseado na obra de Stanislaw Lem, funciona como uma sátira ácida de Hollywood e uma análise sobre a condição humana em uma era de possibilidades digitais ilimitadas. O filme investiga o que resta de nós quando nossa imagem, nossas emoções e nossas experiências podem ser perfeitamente replicadas, empacotadas e distribuídas para consumo em massa.

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A atriz Robin Wright, interpretando uma versão ficcionalizada de si mesma, encara uma proposta que é ao mesmo tempo a salvação e o fim de sua carreira. Com um histórico de escolhas artísticas questionáveis e uma reputação de ser “difícil”, ela recebe uma oferta do estúdio Miramount: digitalizar completamente seu corpo e suas emoções. O estúdio passaria a ser dono de sua imagem, uma avatar jovem e perfeita, livre para ser escalada em qualquer blockbuster que eles desejarem, enquanto a Robin de carne e osso se aposenta, proibida de atuar para sempre. Pressionada pela necessidade de cuidar de seu filho, que sofre de uma condição degenerativa, ela aceita o acordo, entregando sua identidade artística em troca de segurança financeira e a promessa de um legado digital eterno.

Vinte anos se passam e o mundo mudou drasticamente. A tecnologia que digitalizou Robin evoluiu para algo muito mais imersivo. Agora, as pessoas não assistem mais a filmes; elas se tornam os filmes. Através de compostos químicos, a população pode viver em um estado de alucinação coletiva, um universo animado onde qualquer um pode ser quem quiser, inclusive a estrela de cinema Robin Wright. A atriz, agora mais velha, é convidada para o Congresso Futurista, um evento que acontece inteiramente nesta zona animada e psicodélica. Lá, ela descobre que o próximo passo do estúdio Miramount é transformar sua essência digital em um produto químico que permitirá que qualquer pessoa não apenas se pareça com ela, mas sinta o que ela sente, tornando a experiência de ser Robin Wright um bem de consumo.

Ari Folman utiliza a transição do live-action para uma animação lisérgica e fluida não como um artifício, mas como a própria gramática de seu universo. A primeira metade do filme, filmada com atores reais, estabelece a realidade fria e pragmática da indústria do entretenimento, onde a arte é um ativo e a idade uma doença. A segunda metade, um mergulho em um desenho animado que evoca os trabalhos de Max Fleischer sob o efeito de alucinógenos, representa a dissolução completa dessa realidade. A obra examina a mercantilização da identidade num nível fundamental, onde a cópia digital de uma pessoa adquire mais valor e realidade que o ser humano original, uma existência que já não se refere a um ponto de partida concreto. O que acontece quando a percepção se torna a única realidade e essa percepção pode ser comprada e vendida em um frasco?

No centro dessa exploração sobre tecnologia e identidade, permanece o drama humano e particular de uma mãe tentando se conectar com seu filho em um mundo que preza cada vez mais o artificial em detrimento do tangível. A jornada de Robin através das camadas de realidades sintéticas é impulsionada por uma busca por algo autêntico, uma âncora em meio a uma inundação de estímulos fabricados. O Congresso Futurista, baseado na obra de Stanislaw Lem, funciona como uma sátira ácida de Hollywood e uma análise sobre a condição humana em uma era de possibilidades digitais ilimitadas. O filme investiga o que resta de nós quando nossa imagem, nossas emoções e nossas experiências podem ser perfeitamente replicadas, empacotadas e distribuídas para consumo em massa.

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