Em Mansfield, Ohio, o tempo parece operar sob uma lógica própria, ditada não pelo relógio, mas pelo zumbido elétrico de uma máquina de cortar cabelo e pela precisão de mãos habilidosas. É nesse microcosmo que Kevin Jerome Everson situa ‘Three Quarters’, um curta-metragem que observa atentamente o ofício de dois irmãos barbeiros. O filme se desenrola com uma calma hipnótica, concentrando-se nos gestos metódicos, no deslizar da navalha sobre a pele, no som seco da tesoura e na concentração silenciosa que permeia o ambiente. A câmara de Everson não busca conflitos ou arcos narrativos; ela se dedica a registrar o processo, a coreografia funcional de um trabalho que é simultaneamente serviço e arte. O título, que pode se referir a um corte de cabelo específico, também sugere um fragmento, uma fatia de uma realidade maior, apresentada sem ornamentos.
O que poderia ser um simples registro documental transforma-se, sob o olhar de Everson, em uma análise profunda da materialidade do trabalho e da sua cadência. A sua abordagem, característica de sua filmografia, afasta-se de qualquer psicologismo para focar na superfície, nos corpos em ação, nas texturas e nos sons. Há uma dimensão quase filosófica na forma como a obra eleva o ato manual. O ofício dos barbeiros ecoa o conceito de poiesis, a ideia de que a criação não se restringe às belas artes, mas reside em qualquer ato de fabricar, de trazer algo à existência através da técnica. Cada corte é uma pequena criação, uma imposição de ordem e estética sobre a matéria. O cineasta valoriza a perícia e a disciplina, apresentando-as não como um fardo, mas como uma forma de expressão e conhecimento corporal.
Inserido na vasta obra de Kevin Jerome Everson, dedicada a mapear a vida e o labor de comunidades negras americanas, ‘Three Quarters’ funciona como uma peça essencial que ilumina a dignidade e a complexidade de tarefas muitas vezes invisibilizadas. O filme não romantiza nem dramatiza a rotina; em vez disso, encontra na repetição e na técnica uma rica fonte de significado. Ao direcionar a atenção do público para os detalhes de um ofício quotidiano, a obra articula uma potente meditação sobre a natureza da habilidade e o valor contido na perícia, reconfigurando a percepção sobre a beleza e a importância dos gestos que moldam o nosso dia a dia.









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