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Filme: “A Morte Nesse Jardim” (1956), Luis Buñuel

Numa pequena vila mineradora sul-americana, onde o ar é denso de pó e ganância, a ordem precária é estilhaçada por uma repressão governamental. É neste cenário de caos iminente que os destinos de um grupo de desajustados se cruzam. Chark, um aventureiro cínico e procurado por um crime que talvez não tenha cometido; Djin, uma…


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Numa pequena vila mineradora sul-americana, onde o ar é denso de pó e ganância, a ordem precária é estilhaçada por uma repressão governamental. É neste cenário de caos iminente que os destinos de um grupo de desajustados se cruzam. Chark, um aventureiro cínico e procurado por um crime que talvez não tenha cometido; Djin, uma prostituta interpretada por Simone Signoret com uma dureza que mal esconde seu pragmatismo; Castin, um minerador idoso e possessivo, acompanhado de sua filha surda-muda; e o Padre Lizzardi, um homem de fé confrontado pela brutalidade do mundo. Forçados por uma caçada humana, eles não têm outra opção senão fugir, trocando a tirania dos homens pela tirania impessoal da selva. A fuga desesperada marca o início de uma jornada que é menos uma aventura e mais um despojamento progressivo de tudo o que os definia.

A selva, luxuriante e indiferente, se torna o palco principal onde o drama humano se desenrola sem testemunhas. Luis Buñuel filma a natureza com uma beleza enganosa; suas cores vibrantes contrastam com a decomposição moral e física do grupo. Conforme avançam, eles perdem não apenas seus parcos mantimentos, mas também as máscaras sociais. O dinheiro se torna inútil, a fé do padre é reduzida a páginas da Bíblia usadas para acender uma fogueira e a atração sexual se transforma em mais uma ferramenta de poder e sobrevivência. Um dos momentos mais emblemáticos da obra, e que carrega a assinatura de Buñuel, é o encontro com os destroços de um avião, uma carcaça da civilização no meio do nada, completa com um manequim elegante ainda sentado em seu assento, um totem absurdo da futilidade humana.

A análise do filme revela que a narrativa de Buñuel funciona como uma dissolução forçada do contrato social. Longe das leis e das convenções, os personagens regridem a um estado pré-civilizatório, onde os instintos primários ditam as ações. A estrutura de poder dentro do grupo flutua, baseada não em status ou moral, mas em força bruta e astúcia. Buñuel, com seu ceticismo habitual em relação às instituições, especialmente a Igreja e o Estado, utiliza a jornada para expor a fragilidade dos códigos que governam a sociedade. O padre, interpretado por Michel Piccoli, não encontra Deus na vastidão da natureza, mas sim a completa ausência de qualquer ordem moral transcendente. O que resta quando a civilização é removida é apenas a matéria crua da humanidade, com sua capacidade para a violência, a traição e raros, fugazes momentos de compaixão.

‘A Morte Nesse Jardim’ é uma obra singular na filmografia de Buñuel, um trabalho que se apropria da linguagem do filme de aventura para subvertê-la por dentro. As atuações de um elenco notável, que inclui também Georges Marchal e Charles Vanel, dão corpo e peso a esses indivíduos em colapso. O filme não oferece redenção ou catarse fáceis. Em vez disso, apresenta um estudo clínico sobre o que acontece quando seres humanos são empurrados para além dos limites de sua própria construção social, revelando que o jardim do Éden e o inferno verde podem ser, afinal, o mesmo lugar. A jornada termina não com respostas, mas com a imagem potente do que sobrevive quando todo o resto é consumido pela selva.


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