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Filme: "Sob o Sol" (2015), Vitaly Mansky

Filme: “Sob o Sol” (2015), Vitaly Mansky

O documentário Sob o Sol registra a vida de uma família norte-coreana. Ao filmar os bastidores, o diretor revela a manipulação do regime e a construção artificial de cada cena.


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Em ‘Sob o Sol’, o cineasta Vitaly Mansky chega a Pyongyang com um acordo aparentemente simples: filmar a vida de uma família norte-coreana exemplar. O objeto de estudo é a jovem Zin-mi, uma menina de oito anos em vias de ser admitida na União das Crianças, um marco na vida de qualquer cidadão do regime. A equipe de Mansky recebe um roteiro detalhado, locações pré-aprovadas e a constante supervisão de “guias” locais, cuja função é garantir que a câmera capture apenas a perfeição utópica da capital. O que o governo norte-coreano não esperava era que Mansky deixaria a câmera ligada o tempo todo, registrando não apenas as cenas ensaiadas, mas todo o aparato de construção por trás delas.

O documentário se desdobra em duas camadas que correm em paralelo. Na superfície, vemos o que as autoridades queriam mostrar: Zin-mi e seus pais vivendo em um apartamento espaçoso e moderno, desfrutando de refeições fartas, trabalhando em fábricas produtivas e reverenciando os líderes com uma devoção impecável. Mas é na segunda camada, a do “making of”, que a obra revela sua natureza singular. Observamos os guias corrigindo o tom de voz da mãe, instruindo a menina sobre como expressar felicidade, ajustando o enquadramento para ocultar qualquer imperfeição e orquestrando cada diálogo. A realidade não é simplesmente maquiada; ela é fabricada do zero, cena por cena, diante dos nossos olhos.

A análise do filme transcende a mera denúncia da propaganda. O que Mansky documenta é o funcionamento de um sistema que dissolveu a fronteira entre performance e existência. Os pais de Zin-mi, cujas profissões são alteradas no meio da filmagem para se adequarem a uma narrativa mais nobre, não são apenas atores, são cidadãos cuja sobrevivência depende da internalização do roteiro. A própria Zin-mi, com seu olhar por vezes vago e cansado, personifica o esforço psíquico monumental exigido para manter essa encenação. O filme demonstra como o totalitarismo opera não só pela força, mas pela exaustão, pela repetição incessante de rituais e discursos que anulam a espontaneidade.

Nesse sentido, ‘Sob o Sol’ apresenta um dos mais puros exemplos do simulacro de Baudrillard já levado ao cinema. A Pyongyang do filme é uma hiper-realidade, uma cópia sem original. O apartamento perfeito, a fábrica modelo, a refeição abundante, a alegria patriótica: são signos que não apontam para uma verdade subjacente, mas que constituem a própria verdade oficial. O regime não está tentando esconder uma realidade precária; está tentando substituí-la por completo por um modelo que só existe enquanto é performado. A obra de Mansky não expõe uma mentira, mas documenta a mecânica da construção de uma realidade alternativa e auto-sustentável.

O ponto de fratura emocional ocorre em um dos momentos mais quietos do filme. Perto do final, o diretor pergunta a Zin-mi sobre algo que a faça feliz. A menina hesita, busca em seu repertório de respostas programadas e, não encontrando nenhuma, desaba em um choro silencioso e profundo. É a falha na matriz, o instante em que o peso da performance se torna visível e o indivíduo, por um breve momento, emerge por baixo das camadas de doutrinação. É um momento de humanidade crua que revela mais sobre o custo psicológico de viver sob o sol perpétuo dos líderes do que qualquer discurso explícito. O filme se firma não como um ataque, mas como uma observação cirúrgica e melancólica do processo de anulação do eu em nome de um ideal coletivo inatingível.


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