A vida, como um poema mal resolvido, carrega versos que insistem em não rimar. Em Matt e Mara, quarto longa do canadense Kazik Radwanski, essa dissonância ganha corpo na relação entre dois escritores que se reencontram após anos de silêncio. Mara (Deragh Campbell), professora de poesia em Toronto, esposa de um músico e mãe de uma criança pequena, é surpreendida pela reaparição de Matt (Matt Johnson), antigo colega de faculdade e agora autor de sucesso. O filme não se trata, porém, de uma história sobre amores não vividos ou oportunidades perdidas. É antes uma investigação sobre como a linguagem — tanto a literária quanto a dos gestos — molda e desmonta quem acreditamos ser.
Radwanski constrói a narrativa como um ensaio filosófico disfarçado de drama íntimo. A câmera, muitas vezes próxima demais dos rostos, captura microexpressões que escapam ao controle racional: um sorriso contido de Mara ao ser confundida com esposa de Matt, a rigidez de seus ombros ao discutir métrica poética com alunos, a leveza quase imperceptível quando ela observa o marido tocar violão em casa. Esses detalhes, mais do que os diálogos, revelam a tensão central: Mara habita um presente estável, mas fantasma um passado que nunca foi inteiramente real. Matt, por sua vez, personifica o que ela poderia ter sido — ou ainda deseja ser? —, um espelho embaçado de promessas não cumpridas.
A dinâmica entre os dois é menos sobre atração e mais sobre reconhecimento. Em cenas como a do café, onde Matt provoca Mara sobre a biografia acadêmica dela (“Você parece ter medo de ser interessante”), ou no passeio à beira das Cataratas do Niágara, onde um silêncio prolongado substitui qualquer confissão, o filme expõe a fragilidade das narrativas que construímos sobre nós mesmos. Mara ensina seus alunos a desmontar poemas, trocar tempos verbais, experimentar pontuações — um método que ela mesma falha em aplicar à própria vida. Seus encontros com Matt são tentativas de reescrever uma história que, talvez, nunca tenha existido além de projeções mútuas.
O casamento de Mara com Samir (Mounir Al Shami) não é mero pano de fundo, mas contraponto essencial. Enquanto Matt representa a inquietação criativa e a ânsia por reinvenção, Samir encarna uma quietude que Mara simultaneamente rejeita e anseia. Numa cena crucial, durante um jantar com amigos, ela declara, sem cerimônia, que “a música não a toca” — uma afirmação que ecoa como recusa de uma intimidade que exige entrega total. É significativo que, no clímax do filme, Radwanski opte por focar não no possível romance proibido, mas num gesto mínimo entre Mara e Samir: um toque de mãos que diz mais sobre cumplicidade do que mil diálogos.
A genialidade do filme está em sua recusa a reduzir os personagens a arquétipos. Matt, embora charmoso, não é um herói romântico, mas um homem preso numa adolescência prolongada, usando o humor como escudo contra a vulnerabilidade. Mara, por outro lado, não é vítima de tédio conjugal, mas alguém que precisa confrontar seu próprio não dito — não sobre Matt, mas sobre si mesma. Quando ele a descreve como “feita de vidro”, a metáfora vai além da fragilidade: vidro é transparente, mas reflete.
Radwanski encerra o filme sem resoluções, mas com uma pergunta tácita: qual é o preço de se manter inacabado? A resposta, sugerida na imagem final de Mara guardando Matt como “segredo nas páginas de um livro”, reside na aceitação de que identidade e amor são verbos sempre em gerúndio. Não há clímax, apenas um movimento contínuo de ajustes — como versos que se reescrevem ao sabor do vento.
“Matt e Mara”, Kazik Radwanski
Disponível no MUBI




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