Cultivando arte e cultura insurgentes


“Mariliendre” é uma divertida série musical sobre amizade LGBT

Javier Ferreiro tece um mosaico pop sobre pertencimento e ilusões em uma Madri onde a noite é palco e a vida real, um teatro desmontável

“Mariliendre” é uma divertida série musical sobre amizade LGBT

Javier Ferreiro tece um mosaico pop sobre pertencimento e ilusões em uma Madri onde a noite é palco e a vida real, um teatro desmontável

Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em Madri, Mariliendre é uma série-experimento sociocultural disfarçado de festa. Meri Román, interpretada com voracidade por Blanca Martínez, é uma figura que desafia categorias: nem musa, nem intrusa, ela habita a zona cinzenta entre a aceitação e a marginalização. A trama começa com a morte do pai, um homem comum cuja vida dupla como homossexual força Meri a investigar um universo que ela acreditava conhecer — o mesmo que, ironicamente, sempre orbitou ao seu redor.

A série de Javier Ferreiro constrói sua narrativa em dois tempos: o presente, marcado por vazios e responsabilidades adultas, e o passado, retratado como um carrossel de música, drogas e amizades intensas. A dualidade temporal não serve apenas para contrastar eras, mas para questionar como a identidade se forma (e deforma) sob pressões externas. Aqui, a filosofia do devir de Deleuze ecoa silenciosamente: Meri não é estática; ela se desfaz e se refaz ao confrontar as múltiplas versões de si mesma e do pai. A identidade, sugere a série, é um rizoma — fragmentada, conectada, sempre em movimento.

Em vez de discursos sobre aceitação, Javier Ferreiro opta por cenas que misturam o grotesco com o sublime. Uma sequência funerária transforma luto em cabaré, com personagens dançando ao som de Yo quiero bailar enquanto cinzas são espalhadas. O humor ácido, por vezes próximo do absurdo, não anestesia a dor, mas a expõe como parte inseparável da existência. A série não teme a contradição: é vulgar e poética, superficial e densa, como a vida que retrata.

Musicalmente, Mariliendre é um arquivo vivo da cultura pop espanhola e latina. As escolhas — de Paulina Rubio a Beth — não são aleatórias; cada canção atua como comentário irônico da trama. Quando Meri canta Dime em um karaokê, a letra banal ganha ressonâncias trágicas, revelando sua solidão sob o glitter. A coreografia, exuberante mas nunca gratuita, reforça a ideia de que a dança é, para aqueles personagens, tanto fuga quanto ritual de sobrevivência.

Porém, a série tropeça ao tentar equilibrar seu tom. Cenas de humor escrachado coexistem com melodramas abruptos, criando uma sensação de descompasso. A subtrama sobre o afastamento de Meri de seus amigos, por exemplo, perde força por ser resolvida com pressa no final. Os coadjuvantes, embora carismáticos (como Omar Ayuso, em atuação contida), muitas vezes são reduzidos a caricaturas — um pecado em uma produção que pretende celebrar complexidade.

Mariliendre brilha justamente onde mais arrisca: na ousadia de colocar uma “mariliendre” no centro. Meri é uma anti-Hestia, deusa do caos doméstico, que encontra no caos sua própria ordem. A série, como ela, não busca redenção. Prefere, em vez disso, dançar sobre as ruínas de certezas desfeitas, lembrando que, às vezes, a verdadeira identidade está menos no que somos e mais no que ousamos performar — mesmo que apenas por uma noite.


“Mariliendre” é uma série ainda indisponível no Brasil, mas possível de ser assistida por canais do Telegram

Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em Madri, Mariliendre é uma série-experimento sociocultural disfarçado de festa. Meri Román, interpretada com voracidade por Blanca Martínez, é uma figura que desafia categorias: nem musa, nem intrusa, ela habita a zona cinzenta entre a aceitação e a marginalização. A trama começa com a morte do pai, um homem comum cuja vida dupla como homossexual força Meri a investigar um universo que ela acreditava conhecer — o mesmo que, ironicamente, sempre orbitou ao seu redor.

A série de Javier Ferreiro constrói sua narrativa em dois tempos: o presente, marcado por vazios e responsabilidades adultas, e o passado, retratado como um carrossel de música, drogas e amizades intensas. A dualidade temporal não serve apenas para contrastar eras, mas para questionar como a identidade se forma (e deforma) sob pressões externas. Aqui, a filosofia do devir de Deleuze ecoa silenciosamente: Meri não é estática; ela se desfaz e se refaz ao confrontar as múltiplas versões de si mesma e do pai. A identidade, sugere a série, é um rizoma — fragmentada, conectada, sempre em movimento.

Em vez de discursos sobre aceitação, Javier Ferreiro opta por cenas que misturam o grotesco com o sublime. Uma sequência funerária transforma luto em cabaré, com personagens dançando ao som de Yo quiero bailar enquanto cinzas são espalhadas. O humor ácido, por vezes próximo do absurdo, não anestesia a dor, mas a expõe como parte inseparável da existência. A série não teme a contradição: é vulgar e poética, superficial e densa, como a vida que retrata.

Musicalmente, Mariliendre é um arquivo vivo da cultura pop espanhola e latina. As escolhas — de Paulina Rubio a Beth — não são aleatórias; cada canção atua como comentário irônico da trama. Quando Meri canta Dime em um karaokê, a letra banal ganha ressonâncias trágicas, revelando sua solidão sob o glitter. A coreografia, exuberante mas nunca gratuita, reforça a ideia de que a dança é, para aqueles personagens, tanto fuga quanto ritual de sobrevivência.

Porém, a série tropeça ao tentar equilibrar seu tom. Cenas de humor escrachado coexistem com melodramas abruptos, criando uma sensação de descompasso. A subtrama sobre o afastamento de Meri de seus amigos, por exemplo, perde força por ser resolvida com pressa no final. Os coadjuvantes, embora carismáticos (como Omar Ayuso, em atuação contida), muitas vezes são reduzidos a caricaturas — um pecado em uma produção que pretende celebrar complexidade.

Mariliendre brilha justamente onde mais arrisca: na ousadia de colocar uma “mariliendre” no centro. Meri é uma anti-Hestia, deusa do caos doméstico, que encontra no caos sua própria ordem. A série, como ela, não busca redenção. Prefere, em vez disso, dançar sobre as ruínas de certezas desfeitas, lembrando que, às vezes, a verdadeira identidade está menos no que somos e mais no que ousamos performar — mesmo que apenas por uma noite.


“Mariliendre” é uma série ainda indisponível no Brasil, mas possível de ser assistida por canais do Telegram

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading