Cultivando arte e cultura insurgentes


Um sofá da Tok&Stok transformado em sexo explícito

Uma crítica que é o reflexo de incompatibilidades ou um trecho que revela mais sobre quem comenta do que sobre quem posta


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Postei nos meus stories um trecho do livro “A Boba da Corte”, da Tati Bernardi. Era um fragmento sobre um término: um homem que, após ser dispensado, decide fazer sexo uma última vez com a narradora, interrompe o ato no ápice, critica o sofá barato dela — “coisa da Tok&Stok” — e vai embora. O texto não era sobre sexo, mas sobre a ironia de transformar um móvel em metáfora de relações que rangem. Sobre como certas despedidas são tão calculadas que viram performance.

Uma amiga respondeu ao story com um comentário que parecia ter saído de um manual de equívocos: “Acho que isso reforça o estereótipo de que gay só fala de sexo, além de parecer que você aborda o tema de forma super aberta, mas, no fundo, tem algum tipo de questão problemática com isso, que te faz recorrer a esse lado com frequência. Sempre sinto uma certa estranheza quando vejo. E, com base na minha experiência e no que observo das pessoas que sigo, ninguém costuma postar essas coisas dessa forma… Tô comentando só porque realmente acho estranho. Obviamente, sou uma mulher hétero, com um conhecimento muito superficial de literatura, filosofia e questões LGBT, então é bem possível que minha percepção esteja equivocada. Além do mais, você não pediu minha opinião e tem que postar o que quiser e gostar. Sorry pelo comentário”.

A mensagem dela era um labirinto de contradições: assumia ignorância, mas opinava. Declarava heterossexualidade como se fosse um salvo-conduto para dizer bobagens. E reduzia um texto cheio de camadas — sobre poder, vingança íntima e a fragilidade dos móveis — a um “gay falando de sexo”. Não havia personagens gays no trecho. Não havia sexo explícito. Só havia um sofá e um orgulho ferido.

O incômodo não estava na crítica, mas na lógica torta. É como se alguém lesse “Dom Quixote” e reclamasse dos moinhos por serem “barulhentos demais”. O problema nunca foi o moinho. A questão é que certas pessoas confundem não entender com não existir. E pior: transformam a própria limitação em julgamento alheio.

Não foi só isso, claro. Há meses nossas conversas eram como aqueles cafés requentados: sem sabor, só calor vazio. Ela via política como “mimimi”, filosofia como “coisa de gente sem o que fazer”, e toda discussão cultural virava um “mas por que você não posta algo mais leve?”. A amizade virou um jogo de tabuleiro em que só uma pessoa mexia as peças, e eu fingia não ver que o dado estava viciado.

O trecho que postei não era um manifesto, era literatura. E literatura boa incomoda, risca a superfície, faz perguntas sem dar respostas. Talvez ela preferisse que eu escrevesse sobre coisas que não arranhassem o verniz do óbvio. Mas eu não sou móvel de loja de departamento: não existo para ser funcional e discreto.


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